sábado, 24 de fevereiro de 2018

A cunha do chinês



Anda por aí um debate sobre a validade dos diplomas em medicina chinesa. Não me meto nisso: sei tanto disso ... como de medicina chinesa! Mas sinto-me tentado a contar uma pequena história pessoal. 

Um dia, quando vivia em Nova Iorque, apareceu-me uma dor terrível por todo um braço. Afetava-me o sono e o trabalho. Sem a menor dúvida, fora provocada por um esforço físico que, insensatamente, havia feito de forma repetida, uns dias antes. 

Num jantar em casa do embaixador da China nas Nações Unidas, o assunto veio à baila e este perguntou-me: "Queres experimentar o melhor médico chinês de Nova Iorque? Tenho a certeza de que a acumpunctura te tira essa dor, em pouco tempo". Eu sabia da eficácia da acumpunctura em vários casos dessa natureza e fiquei curioso.

Poucos dias depois, lá estava eu a entrar num consultório manhoso, que tinha pouco de médico, pelo menos na boa caricatura que eu deles faço. Lembro-me bem de que era na rua 24, a dois passos do Flatiron - o célebre prédio em forma cunha, o mais antigo (1902) "arranha-céus" de Nova Iorque (de que fica aqui uma imagem, talvez a despropósito). Verdade seja que também fora por uma "cunha" do embaixador chinês que eu ali fora atendido com rapidez...

O médico era um velhote simpático, que me pareceu competente, começando por ser de poucas falas. Fez-me os necessários testes e, no fim, concluiu: "Creio que com umas dez sessões de acumpunctura isso fica resolvido". E fomos ambos olhar para as nossas agendas.

Por esses tempos, a minha vida, em Nova Iorque, era um perfeito inferno, com reuniões de manhã cedo até à noite, seguidas de imensos jantares com uma pesada componente de trabalho. Conseguir disponibilidade para me libertar, por algumas horas, dos meus compromissos nas Nações Unidas, para ter essas dez sessões de acumpunctura, numa zona bem distante do meu escritório e muito mais de minha casa, era algo que me iria desorganizar por completo o quotidiano, tanto mais que as horas do médico chinês eram escassas e muito limitadas na sua flexibilidade. 

Ao ver a minha atrapalhação, o homem, já simpático, saiu-se subitamente com esta: "Há uma maneira de talvez conseguir resolver isso de uma só vez!" Olhei para ele, surpreendido. A surpresa aumentou quando o ouvi dizer: "Podemos mesmo fazer isso já!". Eu devia estar a arregalar cada vez mais os olhos, quando ele me disse: "Quer fazer uma infiltração, uma injeção? Provavelmente resolve o problema."

Resolveu, de facto. Mas, a partir daquele instante, a pouca "fezada" que eu sempre tive nas medicinas não convencionais esvaiu-se ainda mais. Até hoje.

ps - mudei a palavra: escreve-se “acupunctura”

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O jeito



A cidade era uma capital africana, de uma língua muito comum à minha geração, num país onde os tempos de conflito alternavam com os de acalmia política. Estávamos em um desses últimos momentos, pelo que o governante português decidiu passar por lá, num périplo que fazia por África. Era importante encontrar a pequena comunidade portuguesa, ver as oportunidades de negócio para as nossas empresas, dar talvez um empurrão a um incipiente projeto de promoção do ensino do Português. Às vezes, há que fazer algo por um nosso cidadão há muito detido, outras vezes tentar desbloquear um contrato preso nas malhas burocráticas, as mais das ocasiões tentar garantir um pagamento em atraso a algum exportador luso. E coisas assim, porque a agenda raramente varia muito.

Ele era o nosso cônsul honorário local, porque por ali não se justificava haver uma embaixada residente. Chamemos-lhe “Fonseca”. Era ativo como só alguns desses cônsules são - infelizmente, nem todos, muito longe disso. Empresário, tinha vindo, em 1975, de uma nossa ex-colónia em convulsão. Teve sucesso, ganhou dinheiro, conhecia meio mundo local, dava-se com os políticos que subiam e com os que desciam nas crises, porque a vida é como os alcatruzes da nora e há que permanecer na mó de cima. Para além do “penacho” de representar o país, sentia-se bem o seu amor a Portugal.

O nosso homem - que, infelizmente, já lá vai, há bastantes anos - era, contudo, uma “pérola” rara, no universo dos nossos cônsules honorários. Nesse dia do final dos anos 80, à nossa chegada, lá estava ele, lado a lado com os dignitários locais, que tuteava, gente com quem, muito provavelmente, trocara favores em tempos difíceis. E ali estava a recompensa: o estatuto, a bandeira no carro, a confiança. O Fonseca chamava ministros a sua casa, como viémos a ter o ensejo de observar. E, maravilha das maravilhas!, o Fonseca tinha uma chave da sala VIP do aeroporto da capital, não tendo aí de esperar à porta, na dependência dos inconfiáveis serviços locais.  

O Fonseca era, além do mais, um homem muito generoso. Organizou, em honra do governante português, um jantar em sua casa, com tudo o que tinha de melhor: mariscos à discrição, whiskies velhos, vinhos sonantes de anos preciosos. Convidou figuras locais e até um governante de um país de língua portuguesa, de passagem. Éramos algumas dezenas de pessoas, em mesas redondas, com uma extrema abundância de vitualhas.

A casa era estranha, para África. O dia estava ainda luminoso, mas não o usufruíamos. A imensa sala não tinha janelas para o exterior, tudo se passava sob luz artificial, como num cenário. Havia sofás de gosto bizarro e cadeiras rústicas portuguesas, misturadas como um “sideboard” contemporâneo, metalizado. O Fonseca, atento e cuidado ao extremo, circulava entre nós, expeditando os criados, preocupado com o que pudesse faltar. 

Soubemos que vivia só. A família estava, há muito, “já” em Portugal. Desde a nossa entrada que notáramos a presença de uma senhora, portuguesa, que o Fonseca nos apresentara como “Madame Ramos”. Andava entre a cozinha e a sala, orientando o pessoal.

A elegância e a beleza da senhora não haviam deixado indiferentes os membros da nossa delegação. Embora de forma respeitosa, os olhares convergiam sobre “Madame Ramos”, que era uns bons trinta anos mais nova que o Fonseca, sempre que ela assomava à sala. O Fonseca, a certo passo, achou ter o dever de explicar: “Esta senhora é viúva de um português. Tenho-a ajudado depois da morte do marido e tem-me dado muito jeito”. Senti um sorriso irónico perpassar pela cara de alguns membros da delegação, mas o Fonseca fez de conta que não tinha percebido.

Houve o jantar, sem a “Madame Ramos” presente nas mesas, muito provavelmente orientando as coisas da cozinha. À saída, connosco bem comidos e bebidos, e muito bem dispostos, voltei-me para o Fonseca e disse, com um sorriso indefinido: “Agradeça por nós o trabalho da “Madame Ramos” “. Ao Fonseca, que estava numa muito boa onda pelo êxito do evento, saiu-lhe então esta: “Fantástica, não é?”. Soltou-se-me o comentário machista: “Oh! Se é! E como é que o meu amigo disse? Dá-lhe “muito jeito”, não é?”. O Fonseca rebentou numa gargalhada: “O doutor sabe-a toda!”. 

Saímos para a noite quente africana. Já dentro de um dos carros, prestes a partir para o hotel, abri o vidro para me despedir do Fonseca. Este, cúmplice, com um imenso sorriso, fez-me um sinal de “ótimo” com os dedos de uma mão, acrescentando: “De primeira, doutor, de primeira!”. Um pouco atrás, modesta, entre portas, sem ter tido o ensejo de se despedir de nós, surgiu o vulto elegante de “Madame Ramos”.

Uma oportunidade


Às vezes, dou por mim a surpreender-me com a minha própria ingenuidade. E, muito provavelmente, isso vai acontecer de novo. Mas prefiro alimentar uma esperança do que abdicar por cinismo.

Com particular incidência na última década, temos vindo a assistir, em Portugal, a um crescendo de tensão na verbalização do confronto político. Uma certa elegância, que estava longe de ser incompatível com frontalidade e eficácia, desapareceu de grande parte do debate político, com o parlamento a ser palco regular de diatribes entre as bancadas e entre estas e os governos, na utilização de uma linguagem que frequentemente roça o soez.

A manifestação de um mínimo de consideração democrática pelos adversários praticamente desapareceu – e essa é a mensagem que passa para quem, de fora, observa o comportamento dos diversos atores públicos. Nenhum partido está inocente neste terreno, onde o argumento político-ideológico é, quase todos os dias, substituído por insultos de caráter e por manifestações de falta de respeito, que só uma cobardia coletiva impede que acabem nuns pares de honrosas chapadas.

É triste constatar que a desejável renovação etária, em especial na vida parlamentar, acabou por trazer à tona algumas figuras de uma geração desbragada no discurso, débil na educação e na observância dos mínimos de civilidade. E resulta claro que as lideranças partidárias são abertos cúmplices dessa atitude, utilizando a agressividade desses protagonistas de segunda linha como tropa de choque verbal. A imagem que a opinião pública absorve desse ambiente é que agora já "vale tudo". Se os agentes políticos estão convencidos de que baixar a linguagem ao nível do populismo os prestigia, estão muito enganados: a sua imagem é cada vez pior.

Para isto contribui imenso uma situação de excecionalidade de que, em Portugal, não se tem noção, mas que, curiosamente é muito evidente para os estrangeiros que nos visitam. É que impera por cá uma hiper-mediatização da vida política, com uma cansativa presença dos atores partidários nos écrans e nas colunas dos jornais, explorando obsessivamente todos os pretextos para explorar a crispação. Com o futebol e os “desastres”, a política forma a gloriosa “troika” de conforto dos alinhamentos noticiosos, que se emulam e copiam entre si, alimentando-se de sectarismos e de visões confrontacionais. É barato, cria polémicas e sopra audiências.

A oportunidade e a esperança de que falei no início deste texto é muito simples: António Costa e Rui Rio serão capazes de firmar entre si um acordo de cavalheiros que regule os limites de agressividade dos seus “peões de brega”, reduzindo o terreno da sua agressividade verbal? O país, seguramente, agradeceria. A comunicação social não.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Legitimidades


Fernando Negrão teve um resultado medíocre na votação para líder da bancada parlamentar. Outra coisa não seria de esperar. Os deputados social-democratas que lá se sentam foram escolhido por Passos Coelho e eram, na sua esmagadora maioria, fiéis a Luís Montenegro (que, talvez não por acaso, se safou da liderança do grupo em tempo útil, obrigando agora um seu “genérico” a sair pela direita baixa), que já se posiciona para afrontar Rui Rio, ao primeiro despiste deste.

De todo o modo, vale a pena perguntar: quem tem mais legitimidade? A nova liderança de Rui Rio, de que Negrão faz parte, votada em eleições diretas pelos militantes do partido, com o resultado sufragado em congresso, ou deputados eleitos há mais de dois anos, num contexto político muito diferente, que foram perdendo pelo caminho as suas “cabeças de cartaz”, Passos Coelho e Montenegro? Claro que Negrão não os representa! Eles são, maioritariamente, a setor do partido que foi derrotado nas diretas, e que também não conseguiu virar o congresso contra Rio. A conclusão é simples: o grupo parlamentar do PSD que está em S. Bento não representa, de facto, o partido que votou maioritariamente em Rio.

Os deputados que hoje ignoraram ou provocaram Negrão (e, por seu intermédio, Rui Rio) já perceberam que têm de lutar para que o novo líder não chegue às eleições legislativas de 2019. Querem que ele caia antes, com um “levantamento” organizado, tendo por pretexto um eventual mau resultado nas eleições regionais ou, com maior probabilidade, nas eleições europeias. 

Mas por que diabo não esperam esses contestatário pelas legislativas onde, muito provavelmente, a “tareia” do PS no PSD irá ser ainda maior? Por uma razão muito simples: é que, nessa altura, as listas do PSD que irão a votos estarão naturalmente já repletas dos novos fiéis de Rio, muito dos quais não são hoje deputados.

É que aqueles que, na votação de hoje, humilharam Negrão, e de que este e Rio conhecem muito bem os nomes, sabem que, se for Rio a organizar as próximas listas de deputados, vão perder o emprego, pagando com língua de palmo o seu gesto de hoje. E Negrão lá estará para lho lembrar, de dedo apontado para cada um deles. Rio até pode vir a perder a presidência, em face de um mau resultado nas legislativas de 2019. E Montenegro pode mesmo vir a assumir o seu lugar. Mas, neste caso, o grupo parlamentar com que "contará" em S. Bento será formado maioritariamente por gente de Rio. As vinganças servem-se frias. E as vichyssoises também, lembrará alguém.

Isto vai ter muita graça!

A chave do frio


Uma última historieta sobre a visita presidencial a S. Tomé, em 1984.

A chegada da comitiva a São Tomé, na tarde desse dia, fora um tanto caótica. Mas, finalmente, lá foi possível garantir que os membros da delegação presidencial estavam devidamente alojados, na escassíssima rede hoteleira então existente. A boa vontade das autoridades locais, desejosas de prestar o melhor acolhimento possível à primeira visita de um presidente português depois da independência do país, fora fantástica. Melhor era impossível!

Como é das regras deste tipo de visitas, o chefe de Estado estrangeiro oferece, num dos dias, um jantar ao seu homólogo do país. Na ausência de um “cateter” que, em São Tomé, pudesse organizar essa refeição, foi necessário trazer quase tudo de Lisboa, o que era facilitado pela circunstância de ser um voo especial da TAP. Combinou-se que esse material seria guardado numa câmara frigorífica existente na cidade. 

A noite desse primeiro dia já caía, e preparávamo-nos para a intensa jornada que ia seguir-se, quando, esbaforido, entrou de roldão pela residência do embaixador um elemento da empresa responsável pelo jantar que teria lugar dois dias depois: “Desapareceu tudo!”.

Ficámos compreensivelmente alarmados. Se isso acontecesse, seria o caos! O homem, lívido, explicou-nos que dois veículos de carga tinham vistos a sair do aeroporto com o material e que ninguém sabia do paradeiro de tudo aquilo com que ia ser preparado o nosso jantar de Estado.

Dispus-me a esclarecer as coisas. O Fernando Tavares de Carvalho, diplomata colocado na embaixada, ainda sugeriu que só se apurasse o assunto logo de manhã. Mas eu, que tinha ido para ali deslocado de Luanda para garantir uma boa preparação da visita, fiquei nervoso com o potencial cenário de “catástrofe”. Chamei o funcionário da embaixada com quem tinha tratado a questão da câmara frigorífica e, juntamente com o Fernando, fomos tentar ver se o material estava lá ou não.

Só que o serviço frigorífico estava, a essa hora, naturalmente encerrado, pelo que era necessário encontrar, previamente, o responsável pelo acesso ao edifício, um tal Mané, o homem que tinha “a chave do frio”, na expressão forte do funcionário da embaixada. E lá fomos, por vielas esconsas de um bairro muito pobre, na periferia da cidade de São Tomé, comigo ao volante, perguntando, de esquina em esquina, onde ficava a residência do Mané. 

Deviam ser umas dez da noite quando descortinámos a casa que nos foi indicada, um edifício térreo, muito simples. Bateu-se à porta, surgiu uma senhora avantajada. Era a mulher do Mané. Simpaticamente, quase pedindo desculpa, disse-nos que ele saíra e que não sabia quando iria regressar. “Pode vir tarde!”, alertou-nos. 

Quando a porta se fechou, o Fernando, o funcionário da embaixada e eu olhámo-nos, impotentes. E já regressávamos ao carro, dispostos a só esclarecer as nossas dúvidas na manhã seguinte, quando um vizinho, com um largo sorriso de dentes brancos a iluminar-lhe o negro da cara, nos disse, em tom baixo: “Eu sei onde o Mané está. Não é longe.”

Pronto. Tínhamos de ir à busca do Mané, se calhar a um bar das redondezas, onde ele fora beber um copo. Excelente! Onde era? “É em casa da amiga...” 

Olá! A coisa tornava-se mais complicada. E delicada! O vizinho prontificou-se a ir ele próprio avisar o Mané do que pretendíamos, devendo nós seguir para o edifício onde se situava a câmara frigorífica, aguardando aí por ele. Senti-me constrangido: arruinar a “escapadinha” do Mané não me deixava nada feliz, devo confessar (sei que é politicamente incorreto este meu sentimento, mas é a pura verdade). Mas tinha de ser assim. E lá foi o vizinho foi à cata do Mané, connosco a avançar para o “frio”.

Aí uns vinte minutos depois, o Mané surgiu, de cara fechada. Ainda hesitei em dar-lhe umas palavras de conforto pela interrupção causada à sua vida íntima clandestina, mas “fiz de conta” de que nada sabíamos.

“For the record”, constatámos que estava tudo bem arrumado, fora a TAP quem cuidara de armazenar as vitualhas para a jantarada, juntamente com aquelas caixas metálicas prateadas em que trazia uma imensidão das suas refeições, porque Eanes iria ainda de São Tomé para o Zaire e para o Congo.

À despedida, “oleámos” o Mané com uma gratificação pelo trabalho extra que tinha tido e, no carro, rimo-nos a bom rir com a situação criada. Com uma dúvida ficámos para sempre: o Mané regressaria do “frio” à amiga ou a casa? Nunca saberemos.

A memória de Batepá


Marcelo Rebelo de Sousa teve ontem um gesto de grande coragem política. E pessoal. Ao deslocar-se ao monumento que, em São Tomé, honra os mortos do massacre de Batepá.

Tratou-se de um ato criminoso, cometido em 1953 pela administração colonial portuguesa, sob a responsabilidade dessa figura sinistra que se chamou Carlos Gorgulho - mas com a cumplicidade de muitos outros que a nossa História deve anotar com vergonha. Um milhar de pessoas perdeu a vida nessa terrível repressão feita para mobilizar trabalho forçado. Houve mortos por asfixia em celas onde foram encerrados a esmo. Um nome português ficou honrado na denúncia desse ato: o advogado Manuel João da Palma Carlos.

O massacre de Batepá equipara-se bem, na sua alarve violência, ao de Pidgiguiti, na Guiné, ao da Baixa do Cassange, em Angola, aos de Mueda e Wiriamu, em Moçambique.

A Marcelo Rebelo de Sousa, que na sua juventude não é conhecido por ter tido uma postura anti-colonial, cujo pai foi ministro do Ultramar e governador de uma colónia, há que reconhecer um imenso sentido de Estado ao saber ter este gesto. 

O que escrevi até agora é o preâmbulo para um episódio que quero revelar, pela primeira vez.

Na visita que o presidente Ramalho Eanes fez a S. Tomé, em março de 1984, que me competiu preparar, a parte santomense tinha organizado um programa que incluia uma deslocação a uma fortaleza onde se acumulavam, sem o menor cuidado, estátuas do tempo colonial, retratos de figuras portuguesas de Estado e uma exposição fotográfica sobre o massacre de Batepá, com uma determinada legendagem. Nos dias anteriores ao da chegada do nosso presidente, fiz uma volta por todos os pontos desse programa e, ao chegar à fortaleza, concluí que nem todas as coisas se apresentavam aí com uma dignidade compatível com aquela que seria a primeira deslocação de um chefe de Estado do Portugal democrático a São Tomé. No pós-25 de abril, Portugal não rejeita a sua responsabilidade pelos crimes do período colonial, mas não se pode associar oficialmente à sua evocação em moldes que afetem o respeito que lhe é devido como Estado democrático, que fez já o devido "exorcismo" desse tempo. A reação oficial santomense às minhas reservas, ratificadas pelo então embaixador português em São Tomé, Francisco Quevedo Crespo, não foi a melhor, pelo deixámos a decisão final para a delegação presidencial. A qual viria a confirmar a minha perceção. E, se bem me recordo, Eanes não foi aos locais que eu tinha entendido por mais problemáticos. 

Nunca tinha contado esta história. Faço-o hoje, ao expressar a minha grande satisfação pelo facto de um chefe de Estado português ter podido honrar a memória dos mortos de Batepá, mas de uma forma condigna. Agradecendo a Marcelo Rebelo de Sousa tê-lo feito, em nome de Portugal.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O Brexit e a Segurança e Defesa da Europa


A convite do Instituto de Defesa Nacional, tive ontem o gosto de apresentar, a par de um colega espanhol, aos auditores de Defesa Nacional de Portugal e Espanha, numa sessão em videoconferência que envolveu Lisboa, Madrid e Porto, a minha perspetiva sobre os impactos potenciais do Brexit nos equilíbrios e perspetivas de evolução futura da segurança e defesa da Europa. 

Este é um tema muito interessante, e cujo tratamento pouco ainda tem evoluído, no dédalo negocial que é o Brexit, e que também se liga aos equilíbrios no seio da Nato e às relações com os Estados Unidos e que implica uma atenção às diferentes culturas de segurança, por virtude da diferenciada posição geopolítica, que atravessam a própria União Europeia. 

Dei algum destaque às propostas da primeira-ministra Theresa May neste domínio, apresentadas a passada semana à Conferência de Segurança de Munique, bem como às “respostas” de Jean-Claude Juncker. Mas o verdadeiro debate ainda não começou.

Preservando a reserva deste tipo de exercícios, quero apenas notar que a perspetiva global espanhola não parece afastar-se muito da que Portugal tem vindo a defender neste contexto, não obstante, no que toca à atitude face ao Reino Unido, as sensibilidades de ambos os países partam de posições de base algo diferentes.

O inverso de Caná


O presidente da República está de visita a S. Tomé. Em 1984, coube-me a mim a tarefa de preparar a visita do presidente Ramalho Eanes a esse país. (Anos mais tarde, também por ali andei a organizar uma visita do primeiro-ministro Cavaco Silva).

Estava então colocado em Angola e, a pedido do embaixador Quevedo Crespo, que chefiava a missão em S. Tomé, cheguei uns dias antes, para ajudar a preparar os eventos. 

A capacidade logística santomense não estava, à epoca, à altura mínima de uma operação daquela envergadura, que incluía transporte, alojamento e acolhimento, por alguns dias, de um significativo número de pessoas. Inaugurava-se então a extensão da pista do aeroporto de S. Tomé e o avião da TAP transportava uma larga comitiva, que aliás sairia dali para Kinshasa, no termo da visita.

A nossa pequena Embaixada em S. Tomé considerava que não tinha massa crítica suficiente para arcar com a preparação organizativa. Ora, três anos antes, eu tinha tido a meu cargo, na Noruega, a preparação de uma outra visita de Estado, também do presidente Eanes. Daí, talvez, a ideia da minha convocatória. Porém, as diferenças de meios eram do dia para a noite, como pude constatar desde o primeiro momento. E a tarefa tornou-se quase um pesadelo, devo hoje confessar.

Por um daqueles milagres que só as redes da lusofonia proporcionam, fui surpreendido com o facto do então chefe de protocolo santomense ser um velho amigo meu, infelizmente já falecido - o Eurico Espírito Santo, colega de noitadas no Porto, nos anos 60, figura popular na academia portuense e afamado jogador de basquetebol do CDUP. Sem a sua ajuda e sem o seu espírito de "desenrascanço", algumas coisas não teriam sido possíveis, nessa complexa visita.

Desde logo, confrontámo-nos com o facto de, poucas horas antes do banquete oficial que o nosso Presidente daria ao Presidente Pinto da Costa (para as novas gerações: trata-se de outra pessoa daquela que estão a pensar...), não haver disponibilidade de talheres. Dado o alarme, e num carro que um antigo colega de liceu, residente em S. Tomé, tivera a amabilidade de me emprestar, lá fui com o Eurico Espírito Santo, munido de uma "requisição oficial" da Presidência da República santomense, buscar, à famosa e vetusta Pousada de S. Tomé, os talheres necessários. Recordo ter subscrito uma declaração, em que me responsabilizava pessoalmente pela respectiva devolução. Dou-me conta de que não controlei isso depois...

O jantar, num espaço ao ar livre de uma antiga roça, decorreu com a normalidade possível nestas circunstâncias. Porém, a certa altura do repasto, detetei alguma agitação na tenda presidencial, onde os dois Presidentes e alguns altos dignitários se sentavam, naquele modelo de mesa tipo "última ceia", voltada para o "povo", que é um vício arraigado de certos protocolos. 

Por uns instantes, exausto que estava de dias infernais de trabalho, tentei ignorar a movimentação, continuando a conversa com o João Paulo Guerra e o meu colega Castro Brandão, que recordo como companheiros de mesa. Porém, ao final de uns minutos, ao ver a cara afogueada e a movimentação preocupada da assessora do presidente, Ana Gomes, acabei por ir ver o assunto de perto.

O que se passara? O nosso Presidente pediu, a certa altura, um pouco mais de vinho, para, sobre a respectiva qualidade, trocar impressões com o seu homólogo local. E trouxeram-lhe... água! Insistiu e voltou a vir água! Chamados os responsáveis pela mesa presidencial, constatou-se, no "backstage", que já não havia mais vinho. E estávamos ainda a meio do jantar!

Ora acontecera, bem antes do jantar, que eu detectara, na coreografia do pouco fiável grupo de empregados que tomava conta do "catering", uma multiplicidade de olhares, quase lúbricos, fixados sobre as caixas que estavam a ser abertas, do excelente vinho que tinha vindo com a nossa comitiva. Algo me disse, então, que seria avisado pôr de parte algumas caixas, o que fiz na mala do carro que estava a usar. O que se estava a passar justificou, assim, em pleno, a minha prudência. 

Em S. Tomé, foi ver para crer: ao contrário do bíblico milagre das bodas de Caná, o vinho havia-se transformado em água...

Perante a "crise", lá fui, com alguém da Embaixada, buscar as garrafas de reserva ao carro, as quais ficaram, a partir de então, sob a tutela ajuramentada de alguém de presumível confiança. E - revelo agora "para a História"! - levei discretamente comigo duas garrafas desse excelente vinho para a minha própria mesa! (Não têm nada que agradecer, João Paulo Guerra e Fernando Castro Brandão!)

Os Presidentes puderam regressar, finalmente, já com o necessário apoio líquido substantivo, à elevada temática etílica para a qual derivara a conversa de Estado.

Passaram 34 anos. Só posso desejar que nada de similar se repita na animada visita do presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Sporting prejudicado


Acho muito estranha a reação da comunicação social no tocante ao jogo em Tondela.

É evidente que houve uma flagrante irregularidade! É óbvio que o árbitro foi parcial, ao prolongar o tempo de jogo de forma desproporcionada!

Mas não pelas razões que todos adiantaram. Ficou claro que o árbitro foi “caseiro”, que procurou proteger o Tondela, dar-lhe tempo para romper o empate e conseguir ainda marcar um golo, derrotar o Sporting e ficar com os três pontos.

Só que as coisas não correram como o árbitro desejava e acabou por ser o Sporting a trocar-lhe as voltas e a ganhar o jogo.

Nestas condições, se há algum clube que se pode e deve queixar - e muito! - esse clube é o Sporting Clube de Portugal. Sejamos claros e justos!

Não entendo o silêncio de Bruno de Carvalho. Estará com medo?

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Modéstia transmontana


Nós, transmontanos, raramente dizemos em público que o somos: é que a probabilidade de estar presente uma pessoa que o não seja acaba por ser elevada. E essa pessoa ficaria naturalmente humilhada. Por o não ser, claro!

“Na cadeira de um gentleman”



Participei ontem numa homenagem a um homem bom. É o meu barbeiro. Isso mesmo! Joaquim Pinto é um profissional de barbearia de quem sou cliente há quatro décadas. E amigo. Ele tem dez mais de profissão e acaba de ser publicada a sua fotobiografia.

Ontem, no Apolo 70, onde ele oficia, várias dezenas de amigos, muitas figuras conhecidas da sociedade portuguesa que são seus clientes, estiveram por ali a dar-lhe um abraço: do mundo empresarial à advocacia, da política à diplomacia, do jornalismo às universidades, etc. 

Como prefaciador do volume, coube-me fazer a apresentação da edição e falar da pessoa que ela consagra. Referi que o espetro de clientes/amigos de Joaquim Pinto é tal que começa a gerar a vontade de criar uma Confraria que os junte. Avancei mesmo uma proposta de nome, com ressonância temática, que a sala me pareceu acolher com agrado: a “Caspa” (Confraria dos Amigos do Senhor Pinto do Apolo). E também sugeri que o blogue que Joaquim Pinto alimenta (porque este é um cabeleireiro de homens que tem um blogue!), onde estão ilustradas as peças do seu “Museu do Barbeiro”, inaugurado no mesmo local há quatro anos e que recolhe uma notável coleção de objetos históricos da sua arte, deixasse de se chamar “Pinto’s Cabeleireiros” e passasse a ter o nome mais sonante e também “capilar”, de “Pêlo sim, pêlo não”...

Mais a sério, deixo aqui o texto do prefácio do livro “Joaquim Pinto - o barbeiro do poder”, de Paulo António Monteiro, que intitulei “Na cadeira de um gentleman”:

“O termo britânico “gentleman” comporta duas palavras: “gentle”, que pode traduzir-se por “gentil” e “man”, de homem. Juntas, significam “senhor”, no sentido mais nobre do conceito. O meu amigo Joaquim Pinto é um “gentleman”, um “senhor”, nesse mesmo e completo sentido, porque tem em si a educação e a gentileza simples de quem sabe estar e a postura de dignidade de quem faz da vida um acto de atenção natural aos outros.

Conheci-o há quase quatro décadas. Comecei como cliente de um seu colaborador e, com a morte deste, passei, há mais de 30 anos, para as suas mãos profissionais. Por muito tempo, por viver longe, no estrangeiro, não o visitava com a regularidade dos clientes vulgares. O meu ritmo era muito errático. Às vezes telefonava-lhe a marcar hora, do outro lado do mundo, para garantir “slot” na minha passagem imediata, quase sempre apressada e cheia de compromissos, por Lisboa. 

Não foram poucas as vezes em que, durante esses tempos lá fora, tive de explicar, aos amigos e à família, que o comprimento, por vezes exagerado, do meu cabelo não era uma opção estética, uma espécie de “beatlemania” tardia e grisalha, mas apenas a consequência de estar, pacientemente, a aguardar por uma deslocação lisboeta ao meu “barbeiro” - eu sei que já quase ninguém “faz a barba”, mas eu ainda prefiro o conceito ao de “cabeleireiro de homens”. 

É que nunca conheci alguém no mundo que soubesse cortar o meu cabelo como Joaquim Pinto, com quem mantenho códigos acertados sobre o grau desejável de tosquia, desenhada esta, às vezes, em função de certos compromissos imediatamente subsequentes.

Passei pela mão de barbeiros islandeses, franceses, noruegueses, americanos, brasileiros, austríacos, angolanos, romenos, escoceses e até um turco – mas nunca, com nenhum, consegui estabelecer aquela relação de cumplicidade que permite ter a garantia de que quem nos trata do cabelo sabe exatamente o que pretendemos.

Dentre as várias alegrias que o regresso definitivo a Portugal me trouxe conta-se a possibilidade de, com serenidade e previsão, poder dar uma “saltada ao barbeiro”, quando de tal necessito. E, ali chegado, sinto-me em casa. Para mim, “ir ao barbeiro”, em Lisboa, tornou-se já, não numa obrigação ritual, mas num ato social de convívio que cumpro com prazer, de partilha de conversas soltas, sobre as nossas famílias, sobre a vida, com referências, da parte dele sempre simpáticas, a alguns conhecidos desse informal “clube dos clientes de Joaquim Pinto”. 

Quantas vezes, em conversas com pessoas que cruzo profissional ou socialmente, ao vir à baila o nome do nosso “barbeiro”, damos conta de pertencermos ambos a esse seleto “clube”. E, desde logo, cria-se ali uma intimidade acrescida, estabelece-se um laço de união, feito de inevitáveis elogios à figura discreta e educada em cujas mãos profissionais ambos nos entregamos. Até lá por fora, pelo mundo, reforcei relações com base nesse vínculo comum – de que o exemplo mais flagrante foi o saudoso embaixador brasileiro, Dário Castro Alves, em cuja homenagem, que lhe promovi na nossa embaixada em Brasília, o nome do nosso comum amigo Joaquim Pinto foi citado.

É sabido que Joaquim Pinto tem um muito alargado “carnet” de clientes, com figuras variadas, dos negócios à política, da cultura à diplomacia. Porém – o que é notável, para uma profissão onde a conversa é a “música de fundo” do ato profissional – nunca a sua boca se abre para a menor indiscrição, o que a nós próprios garante a liberdade para com eles nos “confessarmos”, aliás como se faz com os amigos, qualidade em que ele se transformou.

Há uns tempos, fiz-lhe uma surpresa. O município da sua terra natal, Resende, organizou uma homenagem e honrou-o com a sua mais alta distinção. Eu, que por acaso estava a umas dezenas de quilómetros dali, tive o grande gosto de, sem o avisar previamente, ir assistir ao ato. E foi muito interessante poder observar o carinho e o respeito que a Joaquim Pinto e à sua Família eram votados pelas pessoas da terra, o reconhecimento do seu prestígio junto das autoridades e pessoal locais. Afinal, não é só em Lisboa que Joaquim Pinto é estimado. 

O livro que o leitor tem perante si fala por si próprio, sem quase necessitar de prefácio. Aqui está um percurso de vida, subida a pulso, graças a trabalho, dedicação e empenhamento. Nessa vida, fui testemunha de tempos menos fáceis, de contrariedades, de desilusões, para não utilizar termos mais fortes. Mas sempre vi Joaquim Pinto reagir com serenidade, com estofo, com grandeza e com o imenso sentido profissional que é o seu. Esse é, aliás, a chave do seu sucesso: trabalho, seriedade e um saber-estar muito raro – raro mas comum nos homens de bem e que se sentem de bem com a vida. 

Este livro é a montra dessa mesma vida - do homem de família ao profissional ilustre. Aqui fica evidenciado também o empenhamento na divulgação da sua arte, que o levou à constituição de um interessante património museológico, bem como à alimentação de um blogue profissional, ambos com apreciável sucesso. Aqui se juntam testemunhos de amigos, embora apenas de um punhado dos muitos que ele tem, que assim quiseram dar-lhe um abraço escrito de simpatia e admiração. É que é para todos nós muito gratificante podermos ter o ensejo de testemunhar o nosso respeito a essa personalidade detentora de uma elevada qualidade humana que é o nosso amigo Joaquim Pinto.”

Vitor Constâncio



Ficou ontem decidida a substituição de Vitor Constâncio da vice-presidência do Banco Central Europeu, no termo do seu mandato de oito anos. 

Ocupou esse cargo num período em que o BCE desempenhou um papel de crescente relevância na política europeia, em especial desde que está sob a presidência de Mario Draghi. 

Constâncio foi, até agora, e depois de Durão Barroso, o português que ascendeu a um lugar mais elevado nas estruturas europeias. Partilha também com Barroso um estatuto de “mal-amado” na política interna portuguesa, no seu caso por ser apontado por muitos como o principal responsável pelas deficiências na supervisão do sistema bancário português, ao tempo que era governador do Banco de Portugal, cuja debilidade a crise financeira veio a revelar em toda a sua extensão.

Pensem o que pensarem os seus críticos internos, o facto é que Vitor Constâncio é hoje uma personalidade portuguesa altamente considerada nos círculos europeus. Aliás, ironicamente, no seu quadro de tarefas no BCE coube precisamente o desenvolvimento dos novos modelos de supervisão bancária europeia, que são vistos como bastante eficazes.

E, ao contrário dos “mixed feelings” que o balanço de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia acabou por suscitar, dizem-me que o apreço pelo trabalho que foi desenvolvido por Constâncio no BCE é um sentimento generalizado.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Sem ironias, ou quase


A entrevista, estranhamente longa e de conteúdo demasiado óbvio (desculpem lá, cara Luisa Meireles e caro Pedro Santos Guerreiro!), que Cavaco Silva deu ao “Expresso”, foi publicada no fim-de-semana do congresso do PSD.

Precisamente por essa “coincidência”, não deixa de ser impressionante que, sobre a figura que mais tempo liderou o PSD e o representou institucionalmente, tenha, nesse contexto, sido mantido um sepulcral e significativo silêncio.

Afinal, não consigo passar sem uma ironia: se o PSD tem esta “memória” de Cavaco Silva, não se espere que o resto do país tenha outra muito diferente...

ps - Pedro Santos Guerreiro estranhou o meu “estranhamente”. E, pensando melhor, tem razão: a entrevista tem o “comprimento” das restantes, no mesmo contexto. A minha reação foi de “cansaço”, mas a culpa foi do entrevistado. 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Lisboa - 70 mesas que perdi


Às vezes, dou conta por aqui da falta que me fazem algumas pessoas. Mas a vida não são só pessoas, é também feita de sítios, em especial de locais de que nos resultaram memórias agradáveis ou mesmo felizes.

Fiz um esforço de memória e elenquei cerca de 70 restaurantes lisboetas, dos que valiam a pena mas que já se foram na voragem do tempo. Algumas dezenas de outros poderia lembrar, mas não o faço. Porquê? Porque o não merecem.

Quem quiser conhecer essa lista comentada, deve clicar AQUI

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Eduardo Barroso


No dia de hoje, imagino que ele estará de um lado diferente do meu, na questão que divide o Sporting. Mas é, desde sempre, um fogoso ”leão”, de primeira água. 

Todo o país o conhece como o cirurgião dos transplantes de fígado. E também como um dos grandes amigos de Marcelo Rebelo de Sousa. Leio que vai acabar a sua carreira, dentro em breve, com a chegada à bela idade dos 70.

Conheci Eduardo Barroso em circunstâncias diversas, algumas das quais bem difíceis. A sua bonomia e jovialidade davam-lhe um ar simpaticamente “leve”, ajudado (então) pelo charuto e pelo saudável gosto por outras coisas da vida. Foi muito bom ter como interlocutor, em tempos complexos, um médico assim.

Em França, tive o orgulho de o ver reconhecido e elogiado pelos seus pares, num grande forum médico internacional, em que foi homenageado como uma das figuras cimeiras dessa magnífica arte de prolongar a vida. Vemo-nos a espaços, pelas curvas da vida, lisboeta e não só.

Hoje, deixo aqui um abraço de admiração e estima a Eduardo Barroso.

O nosso “clochard”



Acabo de ler que morreu um sem-abrigo português, em Londres. 

E lembrei-me logo de Paris. A memória romântica da capital francesa alimentou, desde há muito, uma narrativa idílica sobre os seus “clochards”. Por muitos anos, eles eram vistos como os proprietários da liberdade suprema, usufrutuários das ruas, senhores irónicos de uma vida sem peias. O romantismo disfarçava a tragédia e almofadava as consciências.

Os tempos mudaram: hoje os clássicos “clochards” (a palavra parece derivar de “clocher”, do seu histórico andar “pendular”, fruto do alcool que aquece os dias de muitos) passaram a ser, simplesmente, os “sem abrigo”. E todos percebemos bem melhor, agora sem o comodismo de filosofias baratas, o drama de quem vive e dorme ao-deus-dará.

Um dia, quando estava em Paris como embaixador, foi-me chamada a atenção para um sem-abrigo que, ao final do dia, vinha colocar-se, com regularidade, num dos extremos da rua onde se situa a embaixada. Era português. Vim a saber que era alimentado e ajudado, mas também “fornecido” em álcool, por um grupo de reformados portugueses que, quase todos os dias, se juntam no início do bosque de Boulogne. Também soube que uma “concierge” portuguesa lhe facilitava a higiene. Quis saber mais: se ele desejava ser repatriado para Portugal, que mais era possível fazer por ele, para além de alguma roupa e cobertores que lhe foram entregues. Não foi fácil a abordagem. Através da sua amiga porteira, viemos a apurar que a sua vida em França atravessara uma tragédia romântica e que ele se recusava a encarar o regresso a Portugal. Contactou-se uma irmã, que já tentara intervir, mas verificou-se que os canais de comunicação eram já muito difíceis.

Uma noite fui ter com ele. O álcool (do dia? de anos?) já lhe tinha tirado muito da capacidade discursiva. Foi uma conversa difícil, breve, em francês, ele com umas curiosas interjeições portuguesas pelo meio. Disse-lhe quem era (mas não sei se isso significava para ele alguma coisa), que queríamos ajudá-lo. Não reagiu. A certo passo, achei mesmo que, com a minha insistência, estava já a ser algo paternalista. Senti então que ele se foi “afastando”, furtando-se ao meu olhar. Disse-lhe que batesse à porta, se precisasse de comida. Deixei-lhe algum dinheiro e também um cartão pessoal, com números de telefone que ele podia invocar ou usar, se acaso tivesse problemas. Em silêncio, guardou-o.

Nos tempos seguintes, à noite, ao olhar pela janela para a rua, ficava angustiado ao vê-lo ali, no chão, ao frio, sobre uma grade metálica, de onde lhe vinha algum calor. Mas, de certo modo, confesso que tinha um sentimento positivo por saber que o “nosso clochard” de Paris se acolhia na vizinhança da sua embaixada.

Um dia desapareceu, deixou de ser visto, à noite, na rue de Noisiel. Mandei saber dele. Havia sido internado, com graves problemas de saúde. Depois, soube que havia morrido. 

Lembrei-me do “nosso clochard” em Paris, ao ouvir a história do sem-abrigo português que agora morreu em Londres.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Sem fardas



É um grupo que se reune há mais de quatro décadas, composto por militares, do quadro permanente e milicianos. Hoje esteve quase “au complet”, com duas ou três faltas, registadas na ordem do dia, mas cabalmente justificadas.

De comum, para além da amizade que os une, todos têm o facto de estarem indiciados, desde há muito, pelas autoridades que se presume competentes, por terem participado ativamente num ato de sedição e de subversão da ordem constitucional, ocorrido no dia 25 de abril de 1974.

Nos dias de hoje, junta-os a luta contra qualquer tentativa de amnistia desse crime, o qual, curiosamente, nenhum nega e de que têm mesmo o desplante de afirmar que se orgulham, o que é uma óbvia agravante.

A Marinha prevalece no grupo, e por lá estava hoje o nosso grande Almirante. Da Força Aérea, tivemos um garboso General. O Exército estava representado a nível mais modesto, como se pode ver no canto direito da fotografia, onde se vislumbra um Tenente (até ver, ainda na reserva) de Administração Militar (especialidade de Ação Psicológica).

Foi um almoço, no Clube Militar Naval, conspirativo qb, em torno de umas alheiras de Freixo de Espada-à-Cinta, com vinho (14,5%) do Douro Superior. Os grelos eram magníficos! 

Mais uma grande jornada!

Quebrou-se o consenso europeu?

A decisão de pedir a adesão às Comunidades Europeias foi um ato que conjugou a vontade dos dois mais relevantes partidos políticos portugueses pós-1974. Correspondeu à partilha implícita, por ambas as forças, do entendimento de que a sustentabilidade do novo regime democrático, saído da Constituição de 1976, dependia muito do modo como ele pudesse vir a ancorar-se a um novo projeto gerador de desenvolvimento e bem-estar, sob um modelo social de mercado. Esse era um terreno comum ao PS e ao então PPD, para além das diferenças que os separavam no plano interno e das idiossincrasias conflituais dos respetivos líderes. 

O CDS, cuja matriz procuradamente democrata-cristã da sua liderança inicial (que não das suas bases) se sentia representada numa Europa que fora construída mão-na-mão com a social-democracia, desenhou um discurso europeu que tentou sempre ter algo de próprio. O PCP, com inegável coerência, foi espalhando um “vem aí o diabo!” de Bruxelas e fechou-se para sempre num soberanismo empedernido. 

Os governos de Cavaco Silva viveram num verdadeiro “oásis”, no que à Europa respeitava. Era o reino maravilhoso das maiorias absolutas, com os ‘pacotes Delors” e a sua “coesão económico-social” a terem um impacto inédito sobre o nosso PIB, aquecendo muitos bolsos e modificando a paisagem. Nesse tempo, à esquerda, o PS anuía a quase tudo - por coerência, convicção e falta de alternativa. Até chegar o euroceticismo de Manuel Monteiro, o CDS manteve pacífica a imagem essencial de unidade que o país levava para a Europa. 

A partir de 1995, embora os tempos fossem já outros – na Europa e no país, onde a maioria tinha desaparecido - posso afirmar, com conhecimento próximo de causa, que a política europeia pôde ser conduzida sem grandes sobressaltos. O facto do “novo” CDS assumir um soberanismo que chegava a mimetizar o PCP, obrigava o PSD a colar-se ao essencial das posições do governo socialista, sob pena das suas credenciais europeístas poderem vir a ser postas em causa no quadro do PPE.

Muita água correu entretanto sob as pontes europeias. As opiniões públicas mudaram radicalmente no modo como passaram a olhar para o que antes era a “bondade natural” do projeto, então apenas contestada por minorias caricaturais. 

Apesar de tudo, sente-se que Portugal mudou bastante menos do que outros países, no que toca ao modo como encara o processo integrador. Mais do que um euroceticismo, prevalece hoje por cá uma espécie de eurocinismo. O debate está raptado por ironias bem-pensantes sobre Bruxelas e as suas instituições, por um primarismo argumentativo que, no fundo, é feito da mesma massa daquela que corrói o entusiasmo europeu, um pouco por todo o lado.

Estou a exagerar? Não creio. Tenho mesmo a sensação de que, se fosse necessário lutar por um “sim” num hipotético referendo europeu, cuja resultante final seria ainda assim confortável, parte da nossa opinião pública seria, nos dias que correm, suscetível de alinhar num mar de difusas reticências.

Vou dizer algo que alguns não gostarão de ler: parte importante desse discurso de dúvidas pode facilmente vir a emergir da área do PSD. A meu ver, essa é a força política que tem hoje um potencial mais forte para poder vir a dividir-se internamente sobre a questão europeia. Não desconheço persistir no PSD um conjunto de personalidades com forte sentimento europeu. Mas, do populismo (aceite) de figuras como o seu famigerado candidato em Loures até a alguma irresponsabilidade revelada na questão de cooperação em matéria de Defesa, passando pelo futuro quadro financeiro pluri-anual até ao tema dos “recursos próprios” (os impostos europeus), deteta-se no PSD uma preocupante perda de “automatismo” na sua atitude face à Europa. E o passado ensinou-nos que, sem os sociais-democratas declaradamente “a bordo”, a imagem de Portugal nas instituições da União fragiliza-se e a influência do país pode sofrer com isso. Há alguém que sabe isso bem: chama-se Marcelo Rebelo de Sousa.

Esta não é, porém, uma questão cujas respostas imediatas sejam muito relevantes, por muita consideração que nos possa merecer uma figura como Rui Rio. Tudo vai depender, essencialmente, dessa incógnita maior que é saber o que será o PSD após as eleições legislativas de 2019.

Gulbenkian


De um dia para o outro, ao saber-se que a Fundação Calouste Gulbenkian se preparava para alienar as suas participações petrolíferas, caiu no país o Carmo e a Trindade. Foi como se cada português se sentisse uma espécie de “senhor 5%”. Sem conhecer a limitada dimensão daquilo que vai ser vendido, sem saber que a Fundação apostou, de há muito, numa inteligente diversificação dos seus ativos, Portugal acordou, sobressaltado, para o que parecia ser um grande ponto de interrogação sobre o futuro da instituição da Avenida de Berna.

Há um lado simpático neste alarme. Ele traduz a importância que a Fundação tem para o país, o quanto esta instituição é sentida como “do bem” por todos e por cada um de nós. Há uns anos, senti uma forte revolta quando uma desajeitada sindicância sobre o mundo das fundações colocou injustamente a Gulbenkian sob a mesma “rasa” de outras entidades de não comparável valia. A injustiça do gesto, feito de demagogia mas igualmente de arrogante incompetência, foi sentida por muitos como uma bofetada numa instituição a quem o país deve muito mais do que as aparências indicam.

A Fundação Calouste Gulbenkian – a Gulbenkian para os de fora, a Fundação para quem lá trabalha – foi uma bênção que caiu um dia sobre Portugal, a retribuição filantrópica de um milionário que se cruzou com um grande português que se chamou José de Azeredo Perdigão. Foram a genialidade jurídica e a teimosia negocial de Perdigão que permitiu que a instituição tivesse um destino essencialmente português – mantendo polos em Paris e em Londres, com uma permanente atenção às comunidades arménias, da origem do fundador. Mas há que reconhecer igualmente o gesto hábil do regime ditatorial de Salazar, ao criar as condições para o acolhimento de Gulbenkian, bem como, mais tarde, a sabedoria diplomática do embaixador português em Paris, Marcello Mathias, que obteve a autorização para a transferência para Lisboa da coleção de arte.

A Gulbenkian, ao longo dos anos, foi capaz de desenhar um modelo muito sofisticado de relação com o Estado português. Senti isso como embaixador, quando tive de lidar com a Fundação - em Londres, em Brasília e em Paris. A instituição permanece sempre aberta a uma colaboração frutífera com o país oficial, mas nunca deixa que essa relação seja contaminada por uma qualquer ideia de dependência que coloque em causa a sua autonomia. Os governos (e, muitas vezes, os embaixadores) que não entenderam isto tiveram, com regularidade, momentos de tensão com a Gulbenkian. E aprenderam sempre à sua custa.

A Gulbenkian pode dizer, confortavelmente, como Mark Twain, que as notícias sobre a sua morte são muito exageradas. Agora sob a discreta mas eficaz mão de Isabel Mota, com uma renovada e competente administração que sabe olhar os desafios que aí estão, a Gulbenkian está para lavar e durar. E ainda bem, para Portugal.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A escada


Demora bastantes anos a subir esta escada. Há que fazê-lo com jeito, sem pressas, medindo bem a importância de cada degrau que se pisa. Alguns, na sofreguidão da ambição, tentam fazê-lo dois-a-dois, procurando queimar etapas. A esses, às vezes, e não são poucas, acontece-lhes tropeçarem. Outros, mais preguiçosos, sobem-na com demasiada lentidão, muito passo-a-passo, adormecendo sob o sol da tapada, e, quando se dão conta, verificam que já se faz tarde para chegarem ao topo. Há também os que, na subida, passam o tempo a olhar para o lado, invejosos com a passada dos outros, como se o azar que intimamente desejam aos seus competidores fosse afinal a sua maior fortuna. Alguns desses ainda conseguem a aventura de chegar ao topo da escada mas, quando olham para trás, ouvem umas estranhas gargalhadas vindas do fundo. Mas nunca chegam a perceber quantos se riem deles. Outros, mesmo muitos, acabam por escorregar um dia no atabalhoado do seu percurso, porque o mármore dos degraus é traiçoeiro para quem os não respeita.

Esta é a escada que liga o “palácio velho” às Necessidades. Passei por lá hoje à tarde (“vai em trabalho?”, perguntou-me a bela GNR. “Não, eu já não tenho idade para trabalhar...”, respondi-lhe, correspondendo ao sorriso). Não há uma forma única de subir esta escada, mas aprendi com a vida que só há uma maneira “fair” de a encarar. No entanto, pode-se “subi-la” a partir de cima, mas, acreditem, não é exatamente a mesma coisa... 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Rui Rio


Raramente um líder chega à chefia de um grande partido, em Portugal, nas condições difíceis como aquelas que Rui Rio agora vai enfrentar. 

Desde logo, a conjuntura política do país não o favorece. O governo surfa uma onda positiva e, se não se envolver em outras trapalhadas por culpa própria, o presidente da República não parece disposto a ser acusado de levantar muitas mais ondas. O espaço para um líder da oposição, ainda por cima ausente da visibilidade da bancada parlamentar, é, assim, muito estreito, tendo ainda de contar com um CDS que tudo fará para potenciar nacionalmente o seu fogacho autárquico lisboeta.

No plano interno do partido, as coisas não lhe poderiam ser mais adversas. Os órfãos raivosos de Passos Coelho dão sinais de se prepararem para lhe puxar o tapete, à primeira curva, desde logo “exigindo” a vitória nas próximas eleições europeias e legislativas - como se fosse fácil a qualquer líder do PSD vir a ter um sucesso, se o atual contexto económico se vier a prolongar. Praticamente, a única (mas não despicienda) arma de Rio é o o seu poder na constituição das listas de deputados (europeias e legislativas).

Rui Rio vai ter, além disso, um teste essencial de coerência. 

Numa postura de Estado que muito ajudou a formatar a sua imagem pública de rigor e seriedade, Rio nunca foi conduzido aos caminhos da política “politiqueira”, como a que, por exemplo, procurou explorar demagogicamente a tragédia dos incêndios. Por outro lado, foi sempre um defensor de pactos de regime, sobre grandes temáticas de interesse público, não favorecendo o confronto artificial com o outro lado do espetro político. Veremos se, para apaziguar alguma direita “caceteira” que lhe vai atazanar os dias, Rui Rio é tentado a agravar o discurso confrontacional.

Há um ponto importante que António Costa terá de ter em conta: Rio é uma relativa novidade e, numa vida política em que as caras cansam, o fator novidade é algo com que é sempre preciso contar.

Este vai ser um tempo interessante para a política portuguesa. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

José Avillez


Conheci-o pessoalmente no Brasil, numa prova de azeites, em São Paulo, creio que em 2005. Antes, testara já a sua arte, num jantar, num restaurante em Cascais, o “100 Maneiras”, nos escassos meses em que por lá passou. Pareceu-me então ter “muito jeito”, mas, à época, não fiquei excessivamente impressionado. Um dia, um ou dois anos mais tarde, jantei com uns amigos no “Tavares”, onde ele era já então o chefe. Boa impressão confirmada, mas ainda não deslumbrante. O “defeito” era afinal meu: aí viria a nascer a sua primeira “estrela”, fruto de muito trabalho e apuramento profissional.

Depois, comecei a assistir ao seu notável “desmultiplicar” comercial. Num registo descontraído, mas bom, passei a almoçar várias vezes no “Cantinho”. E gosto bastante, sou cliente. No seu “grande salto em frente”, o “Belcanto”, onde já fui diversas vezes (não vou mais porque é caro!), fiquei, final e completamente, convencido. Ali, José Avillez, porque é dele que eu falo, provou e prova a cada dia ser um excelente chefe, um grande artista da mesa. Ah! E também gosto muito da elegância do seu “Café Lisboa”. E, do mesmo modo, aprecio o cosmopolitismo dos dois espaços complementares do seu “Bairro”, uma bela ousadia profissional. E também acho excelentes as pizzas da sua “Pizzaria”. Está também muito bem o “Cantinho” da Mouzinho da Silveira, no Porto. Mas não, ainda não fui ao “Mini-Bar”, nem ao “Beco”, nem à “Cantina Peruana”, nem à “Tasca Chic”, nem à recente “Pitaria”. É que acompanhar o ritmo da “ cissiparidade” de José Avillez é, como dizem os alentejanos, uma “canseira”, embora muito boa...

José Avillez é hoje uma glória segura da cozinha portuguesa. Foi o primeiro chefe português a obter duas estrelas no “Guide Michelin” e agora, há dias, recebeu o prestigiadíssimo “Grand Prix de L’Art de la Cuisine”, atribuído pela Academia Internacional da Gastronomia (AIG). 

Em particular, fico muito satisfeito por este último reconhecimento, que coroa aquele que a própria Academia Portuguesa de Gastronomia, membro da AIG, de cuja direção faço parte, lhe fez em devido tempo, ao nomeá-lo para os seus mais altos prémios e ao ajudar a promovê-lo internacionalmente. Apenas e porque ele o merece, amplamente.

O turismo português beneficia hoje imenso com o facto do nosso país começar a estar colocado já nas rotas da grande gastronomia à escala global. Os nossos chefes “estrelados”, mas igualmente os restaurantes nacionais no seu todo, ganham um impulso muito importante pelo facto de Portugal ser hoje conhecido com tendo mesas de excelência. E, de caminho, ganham os hotéis, há mais emprego, a indústria turística cresce e entram receitas para o país.

(Mas há quem perca com isto? Claro que sim! Perdem os céticos, os cínicos, os invejosos, os que desdenham o mundo da gastronomia, os mal-dizentes profissionais, os mesquinhos cultores da mediocridade atávica. Para esses, há sempre uma solução: deixá-los a falar sozinhos.)

Parabéns, José Avillez. E obrigado!

Martin Schulz



Sai hoje de cena Martin Schulz, o desafortunado líder do SPD alemão que, depois de ter perdido as eleições legislativas no seu país, com um resultado historicamente mau, se prontificou a tentar uma “grande coligação” com Angela Merkel e a sua CDU/CSU. 

Concluiu esse acordo, conseguiu para o SPD um conjunto muito importante de pastas ministeriais e tudo parecia bem encaminhado para a renovação desse entendimento de “bloco central”. Porém, o anúncio do seu surgimento como ministro dos Negócios Estrangeiros no futuro governo suscitou a revolta do atual titular (e, não por acaso, anterior líder do partido), Sigmar Gabriel, que mobilizou outros setores socialistas contra Schulz. Este decidiu sair, evitando assim uma crise no SPD, que poderia colocar em causa o próprio compromisso que resultou da negociação com Merkel, que ainda tem de ser referendada no seio do partido.

Recordo que, há uns anos, no Parlamento Europeu, onde Schulz era deputado e em que depois seria presidente, teve lugar um debate tenso entre o político alemão e o antigo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. Este, num imperdoável mas não surpreendente destempero, afirmou que ele tinha ar de poder ter sido chefe de um campo de concentração nazi. Schulz soube retorquir com grande dignidade ao insulto rasca de Berlusconi, figura que agora, ironicamente, ao que tudo indica, pode vir a reemergir nesse mundo estranho que é a política italiana.

O que quero aqui dizer hoje é que Martin Schulz foi sempre um bom amigo de Portugal, um homem que, em momentos complicados para o nosso país no terreno europeu, assumiu atitudes de forte solidariedade para connosco. António Costa, nos últimos anos, teve disso claras provas.

É um sinal triste que, nesta Europa, saiam de cena figuras com a dignidade de um Martin Schulz e que volte a ter espaço uma personagem do jaez de um Berlusconi.

Há melhor?


Talvez Lisboa...

Grande Gulbenkian!


Estava nas estrelas!

Estranhei (vá lá!, confesso, não estranhei) o silêncio nos dias subsequentes aos fogos. Os coletes amarelos, na sombra presidencial, diziam que sim com a cabeça a tudo, nessas horas em que a tragédia convocava inapelavelmente às mais radicais ações, no clamor por uma onda inédita de prevenção, para evitar o “remake” do caos, já em 2018. Quando o governo legislou, de braços arregaçados na tecla, perante um país atónito e preparado (teoricamente) para tudo, foram já audíveis, em baixos decibéis, algumas vozes, soando leves reticências, premonitórias do que aí vinha. Mas estava-se na hora do rescaldo, as agulhetas ainda pingavam a useira indignação, num discurso com barbas com nome. Há dias, quando li o aviso de que os fundos seriam cortados a quem não interviesse de forma eficaz no controlo e limpeza das matas, a quem não respeitasse a “deadline” temporal, tive um pressentimento: é demais, a bola vai já ser passada ao governo, deve estar por horas! Meu dito, meu feito! Afinal, quem terá a razão? Este é o país mais previsível do mundo!

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

“Nós” e o Honório


Há pouco, ao passar em frente à casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, lembrei-me dele, do Honório. Foi ao olhar uma fotografia do poeta, magro, traje escuro, bigode ralo, de óculos redondos e chapéu. Pareceu-me ali ver o Honório, essa figura do cenário da minha infância e juventude, lá por Vila Real.

Naquele tempo, não havia na cidade quem não conhecesse o Honório. De profissão, era contínuo na escola do Magistério primário. Ainda me lembro dele vestido de escuteiro, como me recordo de o ver lançar papagaios aos domingos, aproveitando o vento da "marginal", sobre o parque florestal.

Sejamos honestos: o Honório era aquilo que, com alguma crueldade, poderíamos qualificar de um "pobre diabo". Ninguém o levava muito a sério e era, muitas vezes, gozado pela rapaziada que, pelas ruas, lhe chamava o X9, por virtude de alguma similitude com uma personagem da espionagem ficcionada de então. O Honório reagia com expectáveis insultos, e a vida continuava.

O Honório apareceu um dia casado, com nova morada em Folhadela. Numa excursão a Lisboa, ficou famosa uma coça que terá dado na mulher. A pobre senhora, entretanto, deixou viúvo o Honório e este envolveu-se numa questão de partilhas com os cunhados, que se arrastou pelos tribunais, por muito tempo sem decisão. O Honório reformou-se e passou a viver, creio, na Timpeira. Passeava-se com passo rápido, sempre com um saco plástico na mão onde, dizia-se, carregaria os seus mais valiosos pertences.

Desde a infância, sempre tratei o Honório por tu. E ele a mim, claro. Com o meu afastamento da cidade, a partir dos anos 60, notei, da parte de algumas figuras da minha infância, colegas de escola primária ou não, socialmente mais afastadas de mim, uma crescente relutância em continuarem a assumir esse tratamento. Pela minha parte, insisti (e ainda insisto) que tudo se passe sempre nesse imutável registo. Era o que faltava que alguma coisa mudasse, nesse mundo que quero sempre igual!

Um dia, numas férias, indo sozinho ao volante, em Vila Real, vislumbrei o Honório aproximar-se da passadeira. Parei, abri o vidro e atirei-lhe um: “Olá, Honório. ’Tás bom?”

O Honório olhou para mim, e ainda mais para o Mercedes que eu conduzia e que o deve ter impressionado, e, com um largo sorriso, respondeu-me, assumindo uma prudência semântica, feita resguardo social, que nunca mais esqueci: “Estou ótimo! E vós, como ides?”

O meu irmão brasileiro


Nasci sem irmãos. Mas tenho-os na vida. Alguns primos e muito poucos amigos, como é o caso de Eros Roberto Grau.

O Eros, que, com a sua Tânia, se deslocou a Lisboa para o meu aniversário, é um eminente jurista e professor universitário brasileiro. Somos cúmplices de muita coisa, a menor das quais não serão os heterónimos com que regularmente humoramos a vida e o quotidiano. Ele, “José Malhão Fernandes”, eu, “Augusto Maria de Saa”.

Agora, na imprensa brasileira, o Eros - cuja parecença física com Marx é um seu lado distintivo que não rejeita - publicou um belo artigo sobre a nossa amizade. Deixo-o aqui (clique na imagem para aumentar) à apreciação dos leitores.

... e os matraquilhos?

Há injustiças olímpicas (ou olímpicas injustiças) que têm de ser corrigidas, mais cedo ou mais tarde.

Quando me lembro das tardes frígidas de “matrecos”, connosco de samarra e dedos com frieiras, na sala da União Artística, em Vila Real, pergunto-me se esta não seria uma modalidade adequada aos Jogos Olímpicos... de inverno!

domingo, 11 de fevereiro de 2018

40 anos!



Com esta imagem roubada a António Pais no Facebook, aqui fica uma fotografia do III Congresso do Movimento de Esquerda Socialista, no dia 11 de fevereiro de 1978, na Voz do Operário.

Foi há 40 anos, caramba! 

No centro da fotografia, de patilhas, está o António Manuel Alves Martins, o excelente “MFB” (“o militante de fato branco”), uma pessoa de quem os amigos têm muitas saudades.

Um certo Portugal


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Verticalidade


É assim que a sociedade progride. Com gente como Adolfo Mesquita Nunes, que tem a coragem de enfrentar o preconceito.

Quem for consciente da sociedade em que vive tem a obrigação de lutar pela criação de um ambiente de liberdade e tolerância, onde ninguém seja discriminado ou estigmatizado pela sua orientação sexual. 

Gestos como o de AMN, como antes o foi o de Graça Fonseca, contribuem para lutar contra esse preconceito. 

Não querer perceber isto, pretendendo transformá-lo num “não problema”, é apenas um resquício subliminar da homofobia, aliás parte integrante do nosso atraso social.

Um dia, a sociedade portuguesa reconciliar-se-á consigo mesmo quanto a esta questão. Nesse dia, atitudes destas deixarão de ser necessárias. Por ora, são essenciais.

Gulbenkian



A Gulbenkian renova-se da melhor forma. A entrada da embaixadora Graça Andresen Guimarães e do professor António Feijó para o seu Conselho de Administração, ontem anunciada, é uma excelente notícia. 

Trata-se de duas pessoas altamente qualificadas, com magníficos percursos profissionais, que, estou seguro, darão uma contribuição muito importante à instituição, neste tempo de grande exigência para o seu futuro.

Porque coincide serem dois amigos pessoais, deixo a ambos um forte abraço, com votos das maiores felicidades.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sobre a independência



A decisão do Conselho Geral Independente da RTP, que integro, de reformar a composição da administração da empresa inundou-me de telefonemas, sms e emails: “A decisão desagrada a muitos amigos teus, sabias?”

Dias depois, um texto que escrevi no meu blogue, escandalizado com o primarismo do presidente do Sporting, soltou brados leoninos: “Nem pareces sportinguista! Isso vai ser aproveitado pelos outros!”. 

Ontem, depois de ter dado expressão pública do meu desagrado, pelo facto do governo ter nomeado um embaixador político, ouvi, de um lado ideológico que me é próximo: “Com o teu gesto, dás armas à oposição e à especulação mediática”.

Vamos a ver se nos entendemos! Sou, como muitos leitores, um cidadão que pensa pela sua cabeça, cujas ideias não se orientam pelas conjunturas e pelo que “dá jeito”. Não faço parte daquelas pessoas com que Groucho Marx ironizava: “Estes são os meus princípios. Se não gostarem, tenho outros”. Eu não tenho outros. Penso o que penso, gostem ou não.

Falarei pouco da RTP, tema em que, por lei, estou sujeito a secretismo. Fui nomeado pelo governo, que sabia que, a partir desse momento, a minha independência no exercício do cargo seria plena. Tem-no sido e continuará a ser, nos anos de mandato que se seguirão. Farei apenas que entender melhor para o serviço público de rádio e de televisão.

Mas falo livremente do Sporting. Sinto-me triste pelo facto do clube de que sou adepto, muito antes do seu atual presidente ser sequer nascido, estar prestes a ser vítima de uma espécie de golpe de estado - neste caso, estádio seria talvez mais adequado... Uma mudança totalitária que, segundo alguns, pode mesmo vir a colocar em risco o estatuto de “utilidade pública”, com todas as consequências, legais e práticas, daí decorrentes. O facto desta polémica poder estar a ajudar a divergir as atenções sobre os pecadilhos de outros não me convence. O que se passa no Sporting é uma vergonha.

Ontem, escrevi noutro jornal contra a decisão do governo de nomear, para um lugar no quadro da profissão que foi a minha por quatro décadas, uma personalidade a ela totalmente alheia, como se a diplomacia não devesse ser, como as forças armadas ou o mundo judicial, uma carreira estruturada, especializada e exclusiva. Imagino, isto é, sei que o governo não deve ter gostado que eu dissesse o que disse. Custou-me fazê-lo, não apenas porque apoio este governo e a sua política externa, mas porque o nome escolhido é alguém que muito prezo, que apoiei publicamente, e em quem votei privadamente, aquando do último sufrágio presidencial. Mas é o que eu penso.

Sou prisioneiro da minha independência, mas isso é o preço da minha liberdade.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Diplomatas & políticos

A escolha de António Sampaio da Nóvoa para representante diplomático português junto da Unesco é um erro deste governo.

Historicamente, a representação externa dos Estados começou por ser provida por personalidades da confiança do soberano, oriundas da aristocracia. Com os novos tempos e a multiplicação das embaixadas, o serviço diplomático profissionalizou-se. Foram progressivamente criados, em todo o mundo, quadros especializados de serviço público, para assegurar a continuidade da representação do Estado, independentemente dos ciclos políticos. Os embaixadores passaram, em regra, a ser escolhidos dentre os diplomatas profissionais mais qualificados. 

Alguns países, porém, continuaram a manter a prática de designar, para a chefia de certos postos, figuras exteriores às respetivas carreiras diplomáticas. Em geral, as ditaduras e regimes mais ou menos autoritários abusam desta prática, que também foi corrente em regimes presidencialistas (mas, por exemplo, já deixou de o ser no Brasil ou em França, nos dias de hoje). Um país como os EUA persiste e coloca, com regularidade, na chefia de muitas das suas embaixadas, figuras ligadas ao financiamento das campanhas que estiveram na base da eleição do presidente. Bem assessoradas, claro está, por competentes profissionais da diplomacia...

Em Portugal, a Primeira República e o Estado Novo escolheram várias personalidades políticas e sociais para a chefia das principais missões diplomáticas, as quais, aliás, eram então muito poucas. Esta prática não viria a desaparecer por completo com o 25 de abril. Com vários pretextos, diversos governos colocaram figuras que lhes eram afetas em algumas embaixadas. Desde a Revolução, nos últimos 44 anos, com justificações de oportunidade inicialmente ligadas à consolidação dos novos tempos políticos (que já lá vão!), a diplomacia portuguesa veio a albergar uma trintena de "embaixadores políticos", mais notoriamente em postos multilaterais. Os parisienses OCDE e UNESCO foram os mais escolhidos.

Na nossa história democrática recente, alguns desses "embaixadores” serviram num posto e, depois, saíram – quase sempre, após uma rotação governativa, como está na natureza precária da sua nomeação, feita por confiança política. Outros acabaram por rodar entre vários postos, usufruindo de uma legislação que lhes permitiu passar a integrar o quadro dos embaixadores profissionais de carreira. Desde 2011, vivia-se um tempo diferente: não existia nenhum "embaixador político" na diplomacia portuguesa. 

O concurso de acesso à carreira diplomática é o mais exigente de toda a Administração Pública portuguesa. Os funcionários que integram essa carreira fazem um percurso variado, em Portugal e em postos no estrangeiro. As tarefas diplomáticas aprendem-se com tempo e maturação, os comportamentos apuram-se, as pessoas são testadas em diversos cenários geográficos e perante situações muito diversas. Ao final de cerca de duas dezenas de anos, a alguns, mas não a todos, é dada a possibilidade de chefiarem, primeiro missões mais pequenas e, se nelas derem as devidas provas, postos mais importantes. A diplomacia profissional portuguesa é regular objeto de reconhecimento público, quase generalizado, pelo muito que faz pelo país e pelo seu prestígio. Mas, afinal, será que ela não serve para representar Portugal em todos os postos diplomáticos? 

Será assim compreensível que, dentro da carreira diplomática, subsista um permanente sentimento contra a indigitação de figuras que, não tendo feito a tarimba da vida diplomática, não tendo nela subido, ao longo dos anos, os seus diversos escalões, surjam um dia, de "pára-quedas", num determinado posto, qualificados como "embaixadores", por uma simples decisão política. 

Dir-me-ão: mas não houve embaixadores políticos que, no passado, fizeram bom trabalho, que acabaram por ser um valor acrescentado para o serviço diplomático? Claro que sim, embora em poucos casos. Tal como eu talvez fosse capaz, com algum jeito, de não ser um mau Comandante da Região Militar Norte... Mas, como diz o povo, “cada macaco no seu galho”.

Só posso encontrar um único conforto nesta infeliz decisão do governo de António Costa, retomando um dos vícios do aparelhamento político da Administração Pública: é o facto de ter escolhido António Sampaio da Nóvoa, figura intelectual distinta e que sempre demonstrou grande competência e sentido de Estado nos cargos que exerceu, e a quem desejo as maiores felicidades no Ministério que generosamente o vai acolher no seu seio. Dentro do erro, valha-nos isso!