segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Ramalho Eanes


No dia 21 de dezembro, quinta-feira, pelas 18.30 h, irei apresentar na Casa da Música, no Porto, o livro de Isabel Tavares “Ramalho Eanes - o último general”.

Joaquim Pais de Brito


Conheci Joaquim Pais de Brito em 1973, em Paris. Ele vivia na Casa da Noruega, na cidade universitária, e eu tinha ido a França “ver” as eleições, em março desse ano, poucas semanas antes de ingressar no serviço militar. Nesses dias de um inverno gélido, criámos uma amizade calorosa que dura até aos dias de hoje. Se o “crime” já tiver prescrito, um dia contarei por aqui como conseguíamos ir almoçar à cantina de Jussieu, com o António Belém Lima, todos com o cartão universitário com a fotografia do Joaquim (que já então tinha pouco cabelo...). O José Carlos Serras Gago, que nos acompanhou nessas andanças, é testemunha desses tempos estimulantes, em que acabávamos as tardes espreitando cursos livres na universidade de Vincennes.

O Joaquim é uma das grandes figuras da Antropologia portuguesa. Foi diretor do Museu Nacional de Etnologia durante mais de 20 anos e professor universitário emérito do ISCTE. Dirigiu uma das mais interessantes coleções de edição sobre a realidade portuguesa, a “Portugal de perto”, da Dom Quixote, sendo ele próprio autor de um belo livro sobre Rio de Onor, a histórica antiga comunidade agropastoril perto de Bragança, que já havia merecido uma obra pioneira de Jorge Dias.

Na passada sexta-feira, no espaço da Ferin, que agora ganhou uma maior dimensão e riqueza bibliográfica com a associação com a “Ler devagar”, o Joaquim Pais de Brito apresentou um novo livro: “Muitas coisas e um pássaro”. Como posso descrever esta obra? Não são memórias, sendo-o bastante. Não é um livro científico, mas a ciência está por todo o texto. Não é um ensaio, tanto mais que tem conversas conduzidas por três nomes femininos, mas é alguma filosofia do mundo e da vida que se espelha por todo o texto. Há fotografias, há desenhos, principalmente do pássaro que acompanha o Joaquim desde a Nelas natal, onde ele vive agora com a Fabienne.

O João Rodrigues, editor do livro e alma da “Sextante” (tive a honra de ser por ele editado, quando andou pela Dom Quixote) fez uma das mais originais apresentações de um autor a que tenho assistido. Talvez porque ambos se conhecem desde o início dos anos 60, do Citac, em Coimbra, onde iniciaram cumplicidades que se prolongam até hoje. Depois de uma leitura crítica, o Joaquim fez uma excelente intervenção, solta, viva, alegre e profunda. 

Na assistência, eu estava com o António José Massano, que me havia feito conhecer o Joaquim nesse ano longínquo de 1973, e com o João Fatela, que também cruzei pela primeira vez em Paris, na mesma ocasião. Acabámos a noite bem amesendados a reforçar a amizade. A vida é (também) isto.

domingo, 17 de dezembro de 2017

A cicatriz


Como é sabido, a televisão foi, logo desde sua criação, em 1957, um instrumento importante da propaganda política do Estado Novo, em especial à medida que a sua cobertura se alargava pelo país. Basta lembrar o modo como Marcelo Caetano, a partir de setembro de 1968, usou esse veículo de influência, para fazer as suas “conversas em família”.

Creio que desde cedo, o regime abriu espaço a que alguns jornalistas, oriundos dos órgãos mais fiéis ao regime, ali fizessem intervenções temáticas, fosse sobre política interna, fosse sobre temas internacionais. Muitos se lembrarão de Barradas de Oliveira, de João Coito ou de Dutra Faria. Alguns eram mais dotados do que outros para prestações televisivas mas, verdade seja, quase todos os serventuários escolhidos para essas ações de propaganda tinham alguma qualidade intelectual. 

Uma noite, em Vila Real, em data que não consigo precisar, mas que se situa nos anos 60, estávamos a ver televisão e a RTP “passava” Dutra Faria, que era então diretor da ANI, a agência de notícias pública, antecessora longínqua da Lusa. Desdobrava-se, imagino, numa qualquer diatribe anticomunista ou contra os "terroristas" que operavam nas colónias. 

Nas casas portuguesas, a televisão costumava ficar aberta desde que a programação se iniciava, às 19 horas, até terminar, antes da meia-noite. A noite, em família, era passada a ver televisão, fosse o que fosse que estivesse “a dar”. O meu pai mostrava total indiferença face à palestra a que só não lhe punha termo porque, havendo um só canal televisivo, o "zapping" era então um conceito desconhecido. 

Num certo momento da charla, chamou a minha atenção:

- Já reparaste naquela cicatriz que o Dutra Faria tem sobre a sobrancelha direita?

De facto, mesmo no preto-e-branco da imagem desses tempos (e, ligeiramente, na única fotografia que dele encontrei, na net), era óbvio que o homem tinha uma marca particular na pele.

- Eu assisti ao momento em que o Dutra Faria "ganhou" aquela cicatriz. Foi há quase 40 anos...

Olhei, com alguma surpresa, para o meu pai. Ele era o que se pode chamar um republicano "dos quatro costados". Embora inserido na família vila-realense da minha mãe, parte dela conservadora, nunca escondera a ninguém o seu pendor oposicionista. Tinha-me levado pela mão a ver Humberto Delgado, em 1958, quando visitou Vila Real na campanha presidencial, e, em 1969, viria a apoiar com entusiasmo a minha participação na aventura eleitoral local, na CDE, contra o regime, estando ele próprio impedido de fazê-lo pela sua qualidade de funcionário público. Mas, que eu soubesse, e precisamente por essa razão, nunca tinha participado em qualquer combate político, pelo que fiquei à espera da explicação. E ela veio.

- Julgo que foi em 1930, na "casa de pasto" Liège, que existe no alto do elevador da Bica, à esquerda de quem desce. Era um restaurante popular, de galegos, que os funcionários da Caixa Geral de Depósitos, como eu, então frequentavam. Um dia, no período do almoço, assisti a uma cena que me ficou na memória para sempre. Um grupo de "camisas azuis" - os nacional-sindicalistas, dirigidos por Rolão Preto - começou, numa mesa, a dar vivas à contra-revolução e ao fascismo. Os tempos políticos eram muito tensos. A ditadura estava em pleno e os nacional-sindicalistas andavam então numa grande euforia, julgando ser possível instituir em Portugal um modelo próximo do fascismo italiano. Pouco tempo depois, Salazar iria pôr um ponto final nesse radicalismo, obrigando o próprio Rolão Preto ao exílio. Os comensais das restantes mesas olhavam o ruidoso grupo, mas mantinham-se em silêncio. Dei-me então conta que um homem que almoçava sozinho, que vim a saber depois que era nosso colega na Caixa, começou a agitar-se e, a certa altura, não se conteve e gritou: "Viva a Democracia!" ou “Viva a República!”. Os nacional-sindicalistas, sentindo-se provocados, levantaram-se e cercaram a mesa do republicano. Este, ameaçado por todos os lados, pegou numa garrafa e enfrentou o grupo agressor. Na luta que se seguiu, um dos "camisas azuis" foi atingido no sobrolho e começou a sangrar. Aproveitando a confusão, o republicano conseguiu fugir pela calçada da Bica abaixo. O ferido era o Dutra Faria e o republicano chamava-se Carvalho Araújo. Tu sabes quem é...

Claro que sim! Era o Carvalho Araújo, um homem que fora afastado da função pública pelo Estado Novo, por atividades oposicionistas, nos anos 30. Mais tarde, depois de uma vida difícil e tumultuosa, regressou a Vila Real, já nos anos 60. Muito radical e com algum mau feitio, acarretava consigo uma aura de resistente à ditadura, que muito impressionava a nossa geração. Trabalhei com ele, ali mesmo, em Vila Real, na “batalha” oposicionista de 1969. Viria a ser reintegrado na função pública, por curto período, antes de ser aposentado, depois do 25 de abril. E, curiosamente, viria a ser colocado, durante esses meses, sob as ordens do meu pai.

Nessa noite, fiquei a saber a quem se devia a (republicana e vila-realense) cicatriz que nunca mais abandonou o rosto de Dutra Faria. 

A principal avenida de Vila Real chama-se Carvalho Araújo, herói da Marinha na primeira Guerra Mundial, seguramente ascendente familiar do nosso resistente local.

(EM 2013 FOI PUBLICADO NESTE BLOGUE UM POST SOBRE ESTE TEMA QUE CONTINHA ALGUMAS INCORREÇÕES, PASSANDO ESTA A SER A VERSÃO VÁLIDA)

sábado, 16 de dezembro de 2017

Saudades de Paris?


Por um qualquer fenómeno que não consigo explicar, mas que sempre me serenou os dias, nunca senti a menor saudade dos tempos que passei pelas cidades onde vivi. “Fechei” sempre bem todas essas experiências, trouxe delas amigos que as “prolongam” e algumas histórias na memória. Às vezes, contudo, surgem pequenos pormenores que me acordam uma inevitável nostalgia.

Foi o caso de hoje, ao ter conseguido comprar, aqui em Lisboa (milagre dos milagres!), uma razoável baguette de pão. Lembrei-me então - isso sim!, com saudade profunda - das baguettes de Paris, de sair da loja com elas ainda quentes, da sua textura estaladiça, do seu sabor único (em especial do delicioso crestado dos extremos), do prazer de as ir “debicando” pela rua, enfarinhando o sobretudo, sob o olhar divertido (mas também indiferente, porque essa é a graça de Paris) dos passantes. 

É que o pão “de rua” traz em mim memórias antigas, das padarias que também “cediam” manteiga, pelas madrugadas: a da rua Alexandre Herculano, em Vila Real, a do Cais Novo, em Viana, uma que havia na rua do Breyner, no Porto e outra em Santa Catarina, em Lisboa. Não eram baguettes, era pão “de bico” saído diretamente do forno, embrulhado sabe-se lá como (bom dia, Deco e Asae!), que sabia pela vida! Há dias, reparei que, do lado contrário do quarteirão onde vivo, existe uma padaria a funcionar pela noite dentro. Ando cá com uma vontade de dar lá uma saltada, uma destas noites...

Paris? Qual Boulevard Saint-Germain, quais livrarias, qual Lipp, qual carapuça! Do que eu tenho saudade é do pão!

Justiças


O acolhimento em Portugal, após a sua fuga de Timor-Leste, do casal de cidadãos portugueses condenados pela justiça daquele país suscita uma questão muito séria. Não faço a menor ideia se são culpados, da mesma forma que ignoro se são inocentes. Só sei que foram condenados.

Um certo relativismo cultural, que tem atrás de si uma subliminar xenofobia e mesmo algum racismo, considera que certos sistemas judiciais são “inferiores” aos outros, pelo que há alguma legitimidade em fugir à observância das suas regras, em especial quando estão em causa cidadãos “nossos” e decisões que entendemos serem controversas

É evidente que a segurança jurídica não é igual em toda a parte, que há sistemas mais perfeitos do que outros. Mas, se um país como Portugal assume a sobranceria, muito pós-colonial, de contestar a legitimidade de órgãos de soberania de países em desenvolvimento que foram suas colónias, então não se deve admirar e tem de aceitar que outros também desconfiem da nossa justiça.

Um dia, nos anos 90, quando trabalhava na nossa embaixada em Londres, ocorreu, no Algarve, o assassinato de criança britânica. A imprensa tablóide inglesa desencadeou uma campanha contra a insegurança em Portugal, alegando a incompetência da nossa polícia e, no fundo, acusando “os portugueses” (querendo, com isso, significar, uns “selvagens”) pela morte da menina. Foram tempos complexos, com deputados e outras figuras a visitarem, façanhudos, a embaixada, como se o Reino Unido não fosse, ele mesmo, uma “escola” criativa dos mais hediondos crimes, como a história e a literatura regista.

Semanas depois, confesso ter sentido algum gozo íntimo quando, afinal, veio a descobrir-se que o assassino era... um inglês, amigo da família. A imprensa acalmou, por algum tempo, “recolhendo a viola no saco”, nomeadamente quanto à capacidade da nossa polícia.

Pensava eu que o assunto estava encerrado quando, um dia, recebi representes de uma estrutura chamada “Prisioners abroad”, uma associação que defendia os direitos dos cidadãos britânicos detidos no estrangeiro. A filosofia básica subjacente à associação era considerar que o sistema prisional da esmagadora maioria dos países onde estavam encarcerados britânicos seguia práticas que se afastavam do modelo ideal - que, não surpreendentemente, era o britânico... 

Um membro da delegação da “Prisioners abroad” insinuou, no início da conversa, que as autoridades policiais portuguesas poderiam ter forjado uma acusação contra o cidadão britânico. Recordo-me de, com a calma possível, lhe ter dito: “Se ouço a senhora repetir isso, coloco-a fora da porta da embaixada em 30 segundos”. A mulher emudeceu e os seus colegas passaram então a expressar-me as suas preocupações pelas condições de detenção do seu compatriota. Perguntei-lhes: “Mas têm alguma queixa sobre o modo como o detido britânico está a ser tratado?”. Responderam-me que não mas que, no passado, sabiam de casos em que as coisas se tinham passado em moldes que se afastavam dos padrões que entendiam por adequados. Levantei-me, dando a conversa por terminada, dizendo-lhes: “Se acaso, no futuro, tiverem queixas concretas, terei muito gosto em canalizá-las para as nossas autoridades, embora o canal adequado deva ser o advogado do suspeito. Nesse caso, agradeço que me façam chegar isso por escrito. Poupamos tempo”. E levei-os à porta.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Carta ao Nuno Brederode Santos

Olá, Nuno

Desculpa o atraso, mas nos Correios, desde que foram passados a patacos, uma carta parece-se com os comboios espanhóis do antigamente: “llega cuando llega”. 

Ontem, não me esqueci, fez 73 anos que começou a batalha das Ardenas, que os alemães tiveram o cuidado de fazer coincidir com o dia em que tu nasceste. Sabe-se quando uma batalha começa, não se sabe quando vai acabar. É como as vidas, Nuno.

Não nos temos visto, nos últimos tempos. Nem tu nem eu, embora por razões diversas, temos passado pela nossa (bem mais tua do que minha) “mesa dois”. Ao que consta, aquilo, lá pelo Procópio, vai de vento em popa, para alegria do iban da Sedonalice. Parece um apeadeiro do 28, cheio de turistas, já só se ouve falar línguas da estranja. Dizem-me que, há dias, saltou da mesa do piano uma frase sonante. Soou a uma boca do Strecht mas, afinal, era um expatriado da Guiné-Equatorial, país onde, graças à CPLP, vai para cadeia quem não souber declamar Álvaro de Campos - diz-se que também vão por outras razões menos literárias, mas devem ser “fake news”, uma coisa que por cá agora há muito.

Deste nosso país, Nuno, nem sei bem o que te diga. Se eu te contasse que o Centeno vai presidir ao Eurogrupo, acho que me acreditavas tanto como se te dissesse que o Louçã e o Schäuble tivessem escrito um artigo a duas mãos para o boletim da IV Internacional. Na política, este foi um ano do nosso duche escocês: houve coisas muito boas na economia, ganhámos a Eurovisão (não estou a gozar!), Portugal andou cada vez mais na moda e parecia que o mundo nos sorria. Depois, um dia, tudo isso ardeu e este nosso velho país, afinal desordenado e tão frágil, acabou por vir ao de cima. E o governo do nosso amigo António Costa, que, tal como o Mendes Cabeçadas no 28 de maio, está cada vez mais “ministro de todas as pastas”, entrou numa deriva de trapalhadas. Deve ser por isso, por saber-se imbatível mestre neste domínio, que o Santana Lopes, que estava posto em sossego naquele papel de Madre Teresa que lhe caia tão bem, deu um golpe de Misericórdia e está a concorrer à liderança do PSD - é verdade, Nuno, ainda não nos recompusémos do abalo da saída do Passos, essa Axa que abençoava a Geringonça. Do Marcelo, que te hei-de dizer? Espalha imensos afetos, o país continua a gostar dele e a esperar que permaneça fiel àquilo que justifica essa afeição.

Caro Nuno, recebe um abraço do tamanho deste mundo onde fazes muita falta.

Francisco

Trump na relva


Vamos a coisas óbvias. De há muito que o país desportivo vive polarizado por três clubes de futebol. Cada um tem um jornal diário que o “protege”, dispondo de um canal televisivo próprio, que emite apenas a sua “verdade”. Sem exceção, mas com um folclore específico, esses clubes alimentam entre si um discurso de antagonismo que às vezes roça o ódio, veiculado pelos respetivos dirigentes, sob a avidez reverente da comunicação social. Parte importante da construção desse discurso centra-se na influência sobre as arbitragens, estrutura sobre cuja independência recaem historicamente suspeitas, que arrastam os árbitros para a “balcanização” clubista

Cada semana, cada jornada, é, no nosso futebol, uma “batalha” de uma guerra anualmente reiniciada. Atrás destas tropas seguem as hordas das claques, legitimadas pela fé clubista, infiltradas por meios sórdidos, com uma violência javarda sempre absolvida pela pertença à cor comum. Essa irracionalidade consentida tudo admite e desculpa: é sempre o nós ou eles!

A comunicação televisiva, cavalgando com gula de audiências o sectarismo que atravessa o país, organiza semanalmente, por incontáveis horas, painéis de futebol “falado”, alguns com “comentadores” que mais não são do que atores de “tempos de antena”. Destes, há os meros “apparatchicks” dos clubes, num circo que alimenta audiências na razão direta dos decibéis da polémica. Há também figuras com estatuto profissional extra-futebol, utilizados para procurar dar maior credibilidade ao que dizem. Mas já ninguém se ilude: todos servem apenas as teses favoráveis às suas cores. Uns têm maior educação, outros estão ao nível de quem lhes acompanha o sectarismo.

Paremos por um instante. Um jovem, em fase de formação de personalidade, simpatizante de um qualquer dos três clubes, assiste às análises televisivas de um lance. Todos os “seus” comentadores acham que foi penalti. Os outros, ou alguns deles, acham que não. E, de facto, não foi penalti. Com que “verdade” fica esse jovem? Com a verdade ou com a “verdade” do seu clube? 

Começando no futebol e acabando nas coisas da vida, os factos deixam, aos poucos, de o ser. Para o jovem, ter sido ou não penalti é irrelevante, o que importa é que o foi na “verdade” alimentada pelos seus. E é essa “verdade”, isto é, a mentira, porque útil ao egoísmo sectário da tribo em que foi aculturado, que ele vai defender, na escola, no dia-a-dia. Trump ganhou no relvado.

As televisões portuguesas, ao alimentarem tribunas sectárias de falsa “análise” desportiva, são cúmplices do clima de ódio que está instalar-se no país. E, por essa via, são instrumentos conscientes de deseducação cívica. Escrevo-o sem a menor dúvida.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Espanha e Catalunha


Hoje, quinta-feira, dia 14 de dezembro, pelas 18.30 horas, na Livraria Almedina, no Atrium Saldanha, vou apresentar o livro “Espanha e Catalunha, choque entre nacionalismos”, da autoria de Filipe Vasconcelos Romão.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Soares europeu


O Parlamento Europeu vai dar a uma das suas salas o nome de Mário Soares. Nada mais justo. Soares é, a grande distância, o mais insigne dos cultores da ideia europeia em Portugal. Ao aceitar ser deputado europeu, deu uma prova notável desse seu empenhamento.

Quando Jaime Gama me deu a novidade, num dia do primeiro semestre de 1999, caí das nuvens : Mário Soares iria ser o cabeça de lista do Partido Socialista às eleições europeias. Estava já tudo assente entre ele e António Guterres, que passaria a contar com um trunfo importante para o sufrágio. Três anos depois do fim da sua década de Belém, Soares voluntariava-se para uma batalha pela Europa.

Gama pediu-me que falasse com Soares, para o preparar para os debates que iriam seguir-se, procurando garantir que ele não se afastaria da "linha" que o governo Guterres projetava na sua política europeia. 

Convidei Mário Soares para um almoço discreto num restaurante na Madragoa. Expliquei-lhe, com jeito, qual era a minha tarefa. Foi simpático e amigo, como sempre, mas logo concluí que me tinha sido atribuída uma missão impossível: Soares não se deixaria enquadrar. Propus-me preparar-lhe eu próprio um conjunto de fichas temáticas, simplificadas, que refletissem a nossa orientação. Aceitou, de muito bom grado, a ideia. Quando, uma semana depois, lhe enviei o que me tinha dado um imenso trabalho a fazer, telefonou-me de volta, gratíssimo, dizendo que aquilo passaria a ser a sua "Bíblia". Dois dias depois, li na imprensa extratos de uma intervenção sua em Paris : algumas ideias contrariavam abertamente o que vinha na "Bíblia"...

Mário Soares foi sempre um político instintivo e intuitivo, e, as mais das vezes, os factos deram-lhe razão. Isso induzia-lhe uma imensa confiança que o levava a pensar, quase sempre, pela sua própria cabeça. Na Europa, as coisas iriam passar-se da mesma forma. Soares tinha criado uma certa ideia da Europa, das suas linhas tendenciais de evolução desejável, do desiderato mobilizador. Nada o irritava mais do que a tibieza dos burocratas, o peso dos aparelhos, a falta de ousadia, de ambição, de sentido de destino. Em muitas conversas que com ele tive, senti-o descontente com algumas cautelas soberanistas que eu cuidava em ter. Várias vezes me disse que, nas questões europeias se sentia muito mais próximo de Guterres do que de Jaime Gama. Ou de mim. Soares olhava "grande" para a Europa. Eu fui (e sou) sempre um "possibilista".

Quando, em 2002, pedi a Soares um prefácio para o meu livro “Diplomacia Europeia – as instituições, o alargamento e o futuro da União”, a que se voluntariou de imediato, notei que se viu obrigado a distanciar-se ligeiramente nesse texto de algumas das minhas propostas e posições. Mário Soares nunca me achou suficientemente federalista, pelo menos pelos padrões de exigência que ele entendia dever seguir. E tinha razão para pensar assim.

Mário Soares foi um dos portugueses que melhor sentiu o espírito europeu, talvez porque tivesse aprendido que, para um país como o nosso, a palavra Europa é o outro nome da liberdade. Ao honrá-lo, neste que é o ano da sua morte, o Parlamento Europeu tem um gesto de justa gratidão.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Nem quase rei


Assumido republicano dos quatro costados, com um avô paterno mação, alvejado pelos “talassas” aquando da frustrada “monarquia do Norte”, sempre tive, no entanto, uma grande curiosidade pela vida, no exílio, das “casas reais” portuguesas. Digo “casas” e não “casa” porque, por muitos e bons anos, duas linhas se confrontaram em representação da dinastia dos Bragança.

O afastamento de dom Miguel pelo seu irmão dom Pedro, depois da “golpada” para repor o “Ancien Régime” contra a Carta Constitucional, conduziu o primeiro a um eterno exílio de onde já só regressaria morto, bem mais de um século depois. Porque a ala miguelista havia então sido oficialmente banida do território português, todos os descendentes de dom Miguel penaram, a partir daí, pela Europa e, em especial, pela Áustria, onde a genealogia do Almanaque de Gotha lhes deu familiar acolhimento.

No trono até 1910, os descendentes de dom Pedro seriam igualmente conduzidos ao exílio, por seu turno, com a Revolução Republicana. Um novo banimento somar-se-ia então ao anterior, abrangendo agora também toda a restante família de dom Pedro. A partir dessa data, quase se poderia dizer, com ironia, que todos os Braganças passaram para além de Quintanilha...

A proximidade germanófila levou muitos membros da ala miguelista exilada a colocar-se do lado errado na Primeira Guerra Mundial, ao contrário do rei deposto, o qual, com natural lealdade, ficou ao lado dos aliados que tão generosamente o acolhiam no seu seio.

O rei dom Manuel viria a morrer em Londres, em 1932. Sem filhos, a sobrevivência da estirpe acabou por fazer repousar num herdeiro miguelista a responsabilidade do facho monárquico. A designação de um pretendente único ao trono, que o acaso ou a vontade política pudesse um dia vir a ressuscitar, havia passado por recorrentes e nem sempre fáceis contactos entre as duas alas desavindas, durante o tempo do inimigo comum que foi a I República, período em que os monarquistas não deixaram de tentar tomar pela força o poder perdido.

A pretensão ao inexistente trono acabaria assim por fazer-se na pessoa de dom Duarte Nuno, da linha miguelista, pai do atual herdeiro, dom Duarte Pio. Tal como, com maestria, soube fazer à generalidade dos monárquicos ao longo do regime (deixando-os “cair” definitivamente apenas em 1951), Salazar foi dando algum “gás” a dom Duarte Nuno, mantendo-o ”em lume brando” à distância, para o que desse e viesse. O pretendente retribuia-lhe os gestos com grande devoção. Salazar acabou mesmo por permitir que ele viesse viver para Portugal com a família, aceitando o fim do banimento. Porém, curiosamente, nunca lhe daria a “confiança” de o receber pessoalmente. 

Estas e outras histórias da vida desta figura, de recorte algo trágico, pertencente à pequena história política do nosso monarquismo remanescente, surgem agora num livro biográfico de Paulo Drumond Braga, que tem um título que diz tudo: “Nas teias de Salazar. Dom Duarte Nuno de Bragança (1907-1976). Entre a esperança e a desilusão”. 

Havia muito pouca coisa escrita sobre este homem, que falava um português com um sotaque que a ele próprio irritava, que olhava Portugal com uma espécie de saudade que só a História e alguma ambição lhe criara e que se deixou sempre endrominar pelo ditador. Uma figura que esteve muito longe de fazer o pleno na apreciação que dele faziam os seus correlegionários, grande parte dos quais escassamente convencidos das suas qualidades para ascender ao mirífico trono, quanto mais para nele vir um dia a ser rei.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Saakashvili


Leio que Mikheil Saakashvili foi detido na Ucrânia, na véspera de encabeçar uma manifestação contra o presidente Petro Poroshenko, que ontem teve lugar em Kiev.

Conheci Saakashvili em 2004, ao tempo em que era presidente da Geórgia. Com os embaixadores russo, americano, francês e italiano junto da OSCE, escolhidos de entre os membros de uma delegação que visitava o país, ao final de uma tarde, fui subitamente informado de que o chefe de Estado nos convidava para jantar. Aperaltámo-nos para a função e, num comboio de viaturas com forte escolta, fomos levados pela noite para o que recordo ser uma espécie de mansão nos arredores de Tbilisi. Até hoje, por mais que tenha procurado, ainda não consegui determinar onde terá sido aquele repasto. 

Lá chegados, encontrámos uma cena quase familiar. O presidente, com aquele ar um pouco rural que o carateriza, recebeu-nos, jovial, despenteado, em mangas de camisa. Havia por ali mais gente. À nossa chegada, um cavalheiro idoso e alguém de farda desapareceram por detrás de uma porta. Parecia que tínhamos caído numa reunião de clã. Até uma televisão acesa dava um ar íntimo à cena, numa sala cheia de sofás, onde inicialmente fomos instalados. Saakashvili tinha ao seu lado a mulher, uma holandesa muito bonita, que não rimava com nada com tudo aquilo. A Geórgia tinha coisas estranhas: a embaixadora que a França mandara para lá, de raízes georgianas, “went native” e tornou-se... ministra dos Negócios Estrangeiros do país. 

O jantar foi surreal. Ao meu lado, ficou um grunho, gordíssimo, a quem não consegui extrair um sorriso, quanto mais uma palavra. A conversa geral começou serena, com cada um de nós a dizer umas obviedades, mais ou menos simpáticas. Porém, sem surpresas, à menção da Ossétia do Sul, logo tudo se estragou. Saakashvili envolveu-se num diálogo ácido com o embaixador russo, com pormenores que, a certo passo, nos escaparam, porque o debate derivou para russo. Creio que o nosso colega italiano era o único que dava sinais de perceber o que se estava a passar, connosco com ar de árbitros de ping-pong, alternando o olhar entre os topos da mesa. Recordo-me que foi uma noite gastronomicamente desastrosa, tendo, porém, excelentes vinhos locais e um vodka da melhor qualidade (o bom vodka não deixa impactos hepáticos excessivos). A holandesa, cuja presença naquela mesa era já de si bizarra, também “meteu a sua colherada” na conversa, com o americano a contrariá-la, aumentando a confusão. Saímos tarde e ainda hoje guardo uma foto com Saakashviki - eu de fato, como mandam as NEPs da carreira, ele numa informalidade inusitada, mas muito típica daquelas paragens. Na imagem, fica claro que a nossa diferença de alturas é imensa.

Voltei a cruzar-me com Saakashvili há pouco mais de um ano, em Kiev. Ele era então o todo poderoso governador do porto de Odessa, tendo entretanto obtido nacionalidade ucraniana, tendo-lhe sido retirada a cidadania georgiana original. Numa conferência a que então assisti, fez uma diatribe pública contra a permeabilidade do governo ucraniano à corrupção, o que logo me pareceu em aberta contradição com a confiança política do cargo que ocupava. Percebia-se que estava em rápida rota de colisão com Poroshenko. Semanas depois, seria demitido.

Em Setembro deste ano, quando de novo voltei à Ucrânia, surgiu a notícia de que lhe tinha sido retirada a nacionalidade ucraniana, o que o deixava com o estranho estatuto de apátrida. Circulava a informação de que tinha, entretanto, entrado clandestinamente em território ucraniano, depois de se ter refugiado na Geórgia. A sua prisão era, ao que se dizia, iminente. Afinal não seria tão cedo. (Que será feito da bela holandesa, lembrei-me agora?). Poroshenko vai ter de o julgar, embora deva levar em conta a atenção que a comunidade internacional continua a dedicar a Saakashvili. Não conheço bem os contornos do conflito entre os dois. De comum, só lhes conheço o ódio à Rússia, o qual, pelos vistos, não é cimento suficiente para reconstruir aquela que já terá sido uma grande amizade.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Comissões mistas



Era uma mulher muito bonita. Li, há pouco, a notícia da sua morte, aos 75 anos. Chamava-se Christine Keeler.

A história que vou contar - e que dedico à Célia Rocha e ao Frederico Alcantara De Melo, leitores desta página e testemunhas inconscientes do episódio - passou-se nos anos 70 do século passado.

Naqueles tempos, as chamadas “comissões mistas”, as visitas técnico-políticas de membros dos governos aos seus homólogos de outros países, para assinar ou cumprir acordos, demoravam vários dias, entrecortados de trabalho e de algum lazer. Bons tempos esses!

Estávamos em Marrocos, no início da minha carreira, e eu fazia parte de uma dessas delegações, chefiada por um político jovial e mundano, saído de uma área técnica que não vem para o caso referir.

Acabado o jantar oficial do primeiro dia, em Rabat, o nosso governante chama-me à parte e coloca-me uma questão: “Você é muito mais novo que eu, mas já ouviu falar do caso Profumo?”. Ora eu conhecia bastante bem a história do ministro da Defesa britânico, John Profumo, que, uns bons anos antes, havia caído em desgraça, com grande escândalo público, por partilhar uma amante com o adido militar soviético.

Estranhei um pouco que a curiosidade prosseguisse, numa linha inquisitiva: “E lembra-se do nome dela?”. Com algum gozo, mostrei a minha familiaridade com a intriga política londrina e disse-lhe que ela se chamava Christine Keeler. Ele ficou satisfeito.

Mas o que eu não sabia, e ele logo me revelou com um sorriso cúmplice, é que, segundo informações seguras de que dispunha, Christine Keeler vivia então em Marrrocos, mais precisamente em Casablanca, onde dirigia nada mais nada menos que uma próspera “casa de meninas”.

Chegado a este ponto, o nosso político – que, diga-se de passagem, não foi muito longe na sua carreira governativa – lança-me o desafio: “Meu caro, você é um homem do mundo, lá dos Estrangeiros e agora vai ter de mostrar o que vale. Tem como missão arranjar maneira de, numa destas noites, eu dar um salto lá à “casa” da Keeler. Fale com o protocolo marroquino, eles estão habituados a estas coisas. E você, se quiser, até pode vir comigo. Tome bem nota: será um encontro com a História!”.

Caí das nuvens, confesso. Fiz-lhe ver que, andando nós com batedores, com uma delegação relativamente numerosa e enredados em compromissos oficiais vários, era um pouco delicado e difícil montar uma escapada lúdica daquele porte, para uma cidade a quase uma centena de quilómetros da capital. Mas o nosso político insistia e, praticamente, só não ameaçou queixar-se de mim em Lisboa porque, apesar de tudo, este tipo de tarefas não fazia parte, pelo menos obrigatória, da “job description” dos nossos diplomatas.

A minha discreta e pouco empenhada missão junto do protocolo marroquino não teve, porém, aquilo que se possa qualificar como um acolhimento entusiasmado. No entanto, para atenuar os fulgores do nosso político, lá se conseguiu para ele um programa alternativo, através de uma espécie de “room service” feminino, que a viúva de um antigo chefe da polícia de Rabat tinha à época instalado para clientes VIP, no hotel onde nos alojávamos. Do mal o menos e o homem lá se acalmou.

John Profumo morreu já há alguns anos, bem depois no nosso episódico governante. Christine Keeler, que agora morre aos 75 anos (na bela foto que reproduzo tinha 19), acabou por ganhar renovada fama, em 1989, com o filme “Scandal“, onde era relatada a sua aventura londrina. Não verifiquei, na autobiografia que publicou, os relatos das suas posteriores noites de Casablanca. Mesmo que o tivesse feito, e graças à minha lamentável imperícia diplomática, eles não poderiam incluir qualquer nota sobre a visita de um fogoso político português, nos idos da década de 70. A menos que outros por lá tivessem andado! Quem sabe?...

(Reedição de uma história já aqui contada)

A diplomacia como barómetro democrático


Ali Abdullah Saleh presidiu mais de 30 anos ao Iemen. Embora afastado do poder, foi, há dias, morto numa emboscada, no quadro da guerra que arrasa o país - um conflito entre sunitas, tutelados pela Arábia Saudita, e shiitas, obedientes ao Irão. Quem tem mais idade recorda que houve dois Iemen, um “do Norte” e um “do Sul”. Uniram-se formalmente em 1990, mas os ódios étnico-religiosos não terminaram nunca.

Estava a ler uma notícia sobre isto quando me veio à memória um episódio passado comigo em Nova Iorque, em 2001.

Tinha chegado há escassas semanas e fiquei sentado, num almoço, ao lado do embaixador do Kuwait. Perguntei-lhe há quanto tempo estava em posto, em Nova Iorque. A resposta deixou-me siderado: "21 anos".

Comentei que, assim sendo, deveria ser o "decano" dos embaixadores. Respondeu-me que não, que o colega do Iémen estava por lá há ... 28 anos! Já vinha de um dos Iemen e foi cooptado na unificação do país.

Todas as regras têm exceções, mas pode dizer-se que manter diplomatas por longo tempo no mesmo posto corresponde, em geral, a uma prática própria de regimes autoritários.

As democracias praticam a rotatividade dos seus representantes, de X em X anos. Contudo, vale a pena registar que, mesmo em regime democrático, quando às vezes a rotatividade é excessiva, isto é, quando diplomatas, sem outras razões evidentes, não cumprirem um mínimo de 3 a 4 anos no mesmo posto, isso pode indiciar sectarismo político e discricionaridade. E fiquemos por aqui...

A gestão diplomática é um belo barómetro democrático.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Cidades da vida


Há cidades que tenho pena de nunca ter conhecido. “Tens pena? Por que não vais lá?”, imagino alguns amigos a perguntarem-me, achando-me simplesmente forreta, por não querer desembolsar o dinheiro de uma viagem. 

As coisas não são exatamente assim. Há tempos e idades para tudo. Andei muito à boleia, já dormi em maus hotéis. Mas nunca fui um viajante obsessivo. Dos pouco mais de 100 países em que estive (não visitei, “estive”: às vezes só conheci o aeroporto, o hotel e um ministério ou escritório), guardo boas recordações mas, igualmente, memórias menos simpáticas. Quase sempre esqueço estas últimas, porque a vida faz-se é de alegrias.

Em matéria de viagens, estou hoje incomparavelmente mais comodista do que aquilo que sempre fui (e sempre fui muito): gosto de viajar confortavelmente, não aprecio programas “radicais”, não dispenso um bom hotel, com ar condicionado e outras amenidades, nomeadamente gastronómicas. Por isso, os meus desejos em matéria de viagens articulam-se, nestes dias, com esse padrão.

Há cidades que, embora continuando a existir, deixaram de ser o que eram quando a minha imaginação me motivava para as visitar. Exemplos? Sana, no Iemen, Cabul, no Afeganistão, Cartum, no Sudão, ou Aleppo, na Síria. Faziam parte do meu roteiro potencial de viajante, mas a vida que hoje por lá se vive deixou de me entusiasmar. É claro que ainda são visitáveis, há excursões de risco que se podem tomar, mas que graça pode ter ir numa viatura blindada entre um aeroporto e um hotel muralhado, passar a correr, dentro de um carro, por uma rua onde podemos ser assaltados, onde uma bomba pode saltar, onde um “rocket” pode cair, a qualquer momento? É que uma cidade turística, para mim, são passeios a pé, são lojas, é olhar gente, entrar num café, numa casa de velharias, visitar, com calma, igrejas ou monumentos, experimentar (boa) comida local.

Assim, certas paragens, na minha curiosidade contemporânea, deixaram de ter a menor prioridade. Quis ir e nunca fui a Pristina, no Kosovo, nem a Anchorage, no Alasca, nem a Ulan Bator, na Mongólia. Noutros tempos, tive essas cidades no meu potencial mapa de visitas, embora, devo confessar, nunca tenha feito um grande esforço para concretizar esses sonhos. Outras, como Juba, no Sudão do Sul, ou Skopje, na Macedónia, sobre as quais tenho alguma curiosidade, não me animam a uma deslocação.

Durante muito tempo, tive intenções de ir a Alexandria, mas desisti, por ter pouca graça, ao que me dizem, salvo a nova biblioteca. Nada me mobiliza ir hoje a Hanói, que já fez parte da minha mitologia, tal como aconteceu com Katmandu, no Nepal. E admito, sem dificuldade, que já não tenho paciência para ir a Alice Springs, na Austrália, que achava “o máximo” visitar. Mas, estranhamente, e ali ao lado, confesso que ainda gostava de ir a Hobbart, na Tasmânia. E também a Novosibirsk, na Rússia. E a El Aaiun, no Saara Ocidental. E a Stepanakert, no Nagorno-Karabakh. E ainda sonho ir um dia ao Okussi, em Timor-Leste, ou a Tete, em Moçambique, ou a Svalvard, na Noruega, e, talvez ainda, a Thimphu, no Butão, a Salem, no Oregon dos EUA, ou a Punta Arenas, no Chile. Terei tempo? E pachorra? Se calhar, não, mas fica a nota. Sem qualquer melancolia.

Realizei sonhos “esquisitos”? Claro! Fui ao Nakishevan, no Azerbaijão, a Trieste, na Itália, a Sukhumi, na Abcásia, ao Forte Principe da Beira, na Rondónia brasileira, a Siem Reap, no Cambodja, a Bukhara, no Usebequistão. Eram locais que tinha “em agenda” e que consegui visitar - além das cidades “óbvias”, que conheço quase todas (mas não todas!).

Nos tempos que correm, sou um viajante comedido, sem grandes anseios, sem grandes metas. O que vier, soará, como dizia o meu pai que, aos 91 anos, ainda me foi visitar a Nova Iorque e aos 93 a Viena e que, pouco antes de morrer, aos 97, me disse que só lhe tinha ficado “atravessado” nunca ter ido a Luxor, no Egito. “És um sortudo, subiste o Nilo de barco”, dizia-me. Sou, é verdade.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Soares sempre!

Um largo grupo de amigos reuniu-se hoje num almoço rememorativo de Mário Soares. 

Tenho, às vezes, a pretensão de conhecer muito do que de importante existe, em matéria de imagem e escrita, sobre a nossa História contemporânea, mas, frequentemente, tenho surpresas. Aconteceu hoje.

Durante a apresentação de um filme sobre Mário Soares, foi mostrado um pequeno apontamento, gravado nas instalações da RTP, ainda antes do 1° de maio de 1974, em 29 ou 30 de abril. 

No que nele disse, Soares revelava ser aquela a primeira vez, em mais de três décadas de vida política, que tinha a oportunidade de utilizar aquela (então) única antena televisiva. Era uma mensagem fortemente política e significativa.

O mais interessante foi o facto de Mário Soares, nesses breve minutos, ter manifestado a sua concordância com a designação de “primeiro de maio vermelho”, que alguns pretendiam dar à grande manifestação que o povo português iria afinal protagonizar, em fantástica calma, escassas horas depois.

Soares afirmava, nessa intervenção, que não de importava que a data fosse “vermelha”, mas lembrou que esse vermelho deveria ser o das papoilas do Alentejo ou dos cravos oferecidos pelo povo, dias antes, aos soldados da Revolução. Soares acrescentava: “mas não queremos o vermelho do sangue”, porque a Revolução foi feita para a paz.

Foi uma bela homenagem, a que muitos lhe fizemos hoje. Todas lhe são devidas, porque cada uma delas é também uma homenagem à democracia que ele muito ajudou a construir.

Orient House


Mario Soares, que ontem faria 93 anos se a vida não tivesse desistido dele, olhou a papelada que o seu colaborador e meu colega Alfredo Duarte Costa, seu conselheiro diplomático, lhe tinha entregue, naquelas horas que antecediam o nosso desembarque em Israel, e perguntou-me: “Então vai visitar a Orient House?”. 

Era novembro de 1995. Estávamos a viajar no Falcon oficial, sobre o Mediterrâneo, a caminho daquela que seria a primeira (e até agora última) viagem de um chefe de Estado português a Israel e, depois, a Gaza. Eu acompanhava-o como recém-empossado membro do governo.

Expliquei a Mário Soares que visitar a Orient House, a representação da Autoridade Palestina em Jerusalém Oriental, era um gesto que o novo governo português queria dar, como forma de sublinhar, ainda mais, o não reconhecimento por parte de Portugal da reivindicação israelita sobre a totalidade da cidade. Soares estava de acordo com a minha visita, não obstante as autoridades de Israel ainda terem tentado convencer o nosso embaixador, Paulo Barbosa, do desagrado que a deslocação à Orient House lhes provocava. Ainda a montante da chegada a Tel-Aviv, eu tinha mandado informar que não dispensava aquele ponto da minha agenda. Ainda no aeroporto Ben Gurion, Paulo Barbosa perguntou-me se eu confirmava o encontro. Claro que sim, disse-lhe.

Nem o presidente Weizman nem o primeiro-ministro Rabin, contudo, suscitaram, nos encontros tidos com Soares, a questão da visita do membro do governo português à Orient House, que seria feita à margem do programa oficial. Na audiência que me concedeu, o MNE Shimon Peres fez uma breve alusão ao assunto, mais no sentido de eu procurar passar a mensagem aos palestinos das obrigações que lhe incumbiam, decorrentes dos acordos de Oslo. Israel, à época, não tendo abdicado de nenhum dos seus princípios, vivia razoavelmente com o estatuto que a Autoridade Palestina ia tendo em Jerusalém.

Portugal, ontem como hoje, não reconhece os direitos que Israel reivindica sobre todo o território de Jerusalém, pelo que o nosso presidente e o governo expressaram já o repúdio português com a decisão americana de transferir a sua embaixada para Jerusalém, ao arrepio de resoluções que os próprios EUA haviam subscrito. Os americanos aí se encontrarão com Vanuatu e com a Bolívia (que tem a embaixada num subúrbio) e, com toda a certeza, vão a partir de agora ser seguidos no gesto por alguns daqueles que, pelo mundo, têm como política externa seguir os ditâmes do poder americano.

As portas da Orient House, que visitei há mais de duas décadas, foram entretanto fechadas pela cegueira israelita, há já vários anos. Com este seu gesto, Trump colocou mais um prego no caixão da paz no Médio Oriente.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

No ano da morte de Mário Soares

Mário Soares comemoraria hoje o seu aniversário. Recordo-me da festa que lhe foi feita nos 80 anos e, em especial, da bela ocasião que foi o almoço comemorativo dos seus 90 anos, tendo ainda a seu lado essa também imensa figura que foi Maria Barroso.

Portugal é um país feliz por ter podido contar com uma figura como Mário Soares, na sua História contemporânea. Devemos-lhe o desenho político do regime que hoje nos governa, como já lhe tínhamos ficado a dever a sua coragem na luta contra a ditadura. Soares deu-nos lições de bom-senso, de profundo sentido democrático, de tolerância mas também de grande determinação na defesa de valores e de princípios que hoje são estruturantes da nossa vida cívica coletiva.

Neste que, repescando Saramago, é “o ano da morte de Mário Soares”, apetece-me dizer, com a alegria de quem teve o privilégio de ser seu amigo: “Viva Mário Soares”.

Gaffes


Há dias, um site que tem pretensões a ser voz da intelectualidade da direita, dedicou largos minutos a mostrar, sublinhando-os com pretenso humor, os gestos físicos involuntários de alguns membros do governo, durante as horas de perguntas, na sessão pública comemorativa dos dois anos de trabalho do executivo. 

É claro que, como acontece a todo e qualquer normal cidadão, alguém sentado por largo tempo numa cadeira acaba forçosamente por, num determinado momento, coçar a orelha, o nariz ou passar a mão pelo queixo, além de outros gestos automáticos (pegar no telemóvel, sussurrar algo ao vizinho de cadeira, etc). Se a cena for filmada por algumas horas, se se recortarem precisamente os segundos em que esses gestos tenham lugar e se se os juntar todos numa sequência, cria-se um ritmo de imagem que pode parecer ridículo. Mas issó só resulta assim porque, artificialmente, o “jornalista” - esse, pelos vistos, com todo o tempo do mundo para se coçar... - juntou artificialmente as cenas que, malevolamente, introduzem uma imagem que se pretende apoucar. Algum dos ministros cometeu, pelos gestos que fez, alguma gaffe? Não, mas algum “jornalismo” quis tirar um efeito que pretende assimilar a lapsos públicos.

Ontem, fui a um telejornal da TVI e, no fim de uma série de perguntas sobre Trump e a Palestina, falei dos acordos de “Camp David e Paris”. Continuei a responder mas (“on the back of my mind”) dei-me conta de que deveria ter dito “de Washington e Oslo” (a origem do erro é que, em política internacional, nos rotinamos a falar dos acordos “de Dayton e de Paris”). Um lapso, numa referência, creio que perdoável, numa conversa de dez minutos.

Mas, pelos vistos, nem todos têm direito ao “perdão”. No domingo passado, eu estava sentado em frente a António Costa, numa cerimónia no Palácio da Bolsa, no Porto. Costa fazia um discurso de improviso. A certo passo, numa frase, trocou a palavra “emprego” por “desemprego”. Pode acontecer a qualquer pessoa, num discurso corrido, e não lido, de vinte minutos. Eu disse logo para a pessoa ao meu lado, que aliás nem tinha notado o lapso, pensando ter ouvido mal: “Esta vai ser a notícia!”. Meu dito, meu feito. Uma folha informativa colocou a gaffe a todo o esplendor da sua primeira página do dia seguinte e, cúmulo dos cúmulos, uma figura da oposição veio nela indignar-se com o lapso, considerando-o significativo e freudiano. 

Isto bateu no fundo, em matéria de algum “jornalismo” (na polítca, nem é bom falar). E se o outro, o verdadeiro jornalismo, sem aspas, não se indignar e souber reagir contra as práticas desses “colegas”, corre o risco de cada vez mais ser metido no mesmo saco. De lacraus, claro.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Johnny Halliday

Era junho de 1964. Provavelmente dia 14. Num jornal, saiu a notícia de que Johnny Halliday fora a uma discoteca, algures em França, onde só era permitida a entrada de jovens com menos de 21 anos. O cantor foi lá na última noite em que ainda tinha 20 anos. Faria 21 no doa seguinte.

Para quem, como eu, tinha 16 anos e vivia em Vila Real, onde não havia discotecas, a notícia marcou-me, sei lá bem porquê. Das coisas que eu me lembro...

Apesar de alguns anos mais velho, Halliday, que hoje morreu, é "um rapaz do meu tempo", um tempo em que tinha como namorada Sylvie Vartan e arrasava musicalmente a França e a concorrência, o que, em Portugal, acompanhávamos, com algum "voyeurisme" adolescente, através da leitura da revista "Salut les Copains". 

Nunca fui um incondicional: a sua canção de que sempre mais gostei era a versão francesa do "The House of the Raising Sun", traduzida pelo "Le Pénitencier", o que não ilustra muito o meu apreço pelo “rock” à moda francesa.

Halliday foi o émulo possível de Elvis Presley, mas, contrariamente ao cantor americano, a sua carreira teve escasso impacto fora do mundo francófono, onde, contudo, era um ídolo incontestado. Alimentou sempre um estilo de "bad boy", que ia bem com o seu tom de voz e a figura de roqueiro "blouson cuir", olhar castigador e moto à ilharga. 

Um dia, creio que em 1971, andava eu à boleia por essa Europa, fiquei à porta de um concerto seu, em Bayonne ou Biarritz, à falta de bilhetes. Mas quando vivi em Paris nunca tive a nostalgia suficiente para me bater por uma entrada num espectáculo para o ouvir.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Manuel Marín


A cena estava montada. E não era nada agradável. 

Eu tinha tomado posse do cargo de secretário de Estado em 28 de outubro de 1995. E, menos de 24 horas depois, viajei com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, para o Luxemburgo, para um Conselho de Ministros “Assuntos Gerais”, sob presidência espanhola. A União Europeia estava prestes a concluir um acordo de comércio com Marrocos. Portugal era o “chato” que estava a criar problemas para a conclusão do acordo, por razões que, recordo-me, se prendiam com os interesses dos nossos industriais de conservas de atum.

A meio do Conselho de ministros europeu, a Comissão pediu para se reunir com Portugal. A responsabilidade da política comercial europeia é da Comissão, sob mandato negocial aprovado pelos ministros. “Isto vai começar! Veja o que eles querem”, disse-me Gama, já prevendo uma batalha interessante. A Espanha sabia das nossas boas relações com Marrocos e preparava-se para tentar bilateralizar o problema, convertendo-o num dissídio luso-marroquino.y

A coreografia montada naquela sala antiquada das instalações que União Europeia tem no Luxemburgo impressionaria quem não conhecesse este género de “shows”. Do lado de lá da mesa, chefiada por Manuel Marin, vice-presidente da Comissão Santer e comissário para as Relações Externas e Desenvolvimento, estava uma “invencível armada”. Eram aí uma vintena, nas duas filas de gente. Gente de Bruxelas e de Madrid. Todos nos conhecíamos, pelo menos de vista, dos corredores da Europa comunitária.

Eu ia com quatro pessoas: Clotilde Câmara Pestana, Teresa Moura, Isabel Vila Santa e alguém da nossa representação em Bruxelas, que agora não recordo. Sei que eram todas mulheres.

“Tu veux qu’on parle en français, Francisco?”. Manuel Marin, o “menino bonito” da Comissão, era um velho conhecido. Durante vários anos anteriores, tinhamo-nos encontrado um pouco por todo o mundo, dos Barbados a Bruxelas, de Brazaville a Lomé, passando pelas Maurícias e pelas Fidji. Respondi com garbo, rindo: “Si quieres, hablamos en castellano!”. O meu “portuñol” era péssimo, mas eu sabia que Marin, como comissário, só estava autorizado a falar uma das línguas de trabalho - francês ou inglês. 

A conversa foi o previsível. A Europa estava à espera, há semanas, do novo governo português, para tentar flexibilizar a posição negocial até aí mantida por Lisboa. Para mim, a questão era duplamente delicada: era muito difícil a um novo governo, que ainda não tinha sequer reunido um único Conselho de Ministros, prescindir de defesas nacionais assumidas pelo governo cessante. No meu caso pessoal, que até à véspera tinha titulado, como diretor-geral adjunto dos Assuntos Europeus, essa mesma posição, fazê-lo seria dar mostras de grande incoerência. 

Marin foi duro. Dramatizou a nossa responsabilidade, no caso de um falhanço de um acordo com Marrocos, sabendo que isso politicamente seria sério para nós (Portugal tem melhores relações com Marrocos do que a Espanha). Estava a tentar ajudar a presidência espanhola a fechar o dossiê. E sabia que só o podia fazer à nossa custa. (No mês seguinte, o MNE espanhol, Javier Solana, far-nos-ia a “partida” de nos deixar a sós, Jaime Gama e eu, com os marroquinos, numa sala de Bruxelas). Quis dar-lhe a ideia de que estávamos sem pressa. E recordo-me de ter acrescentado, críptico: “A seu tempo, faremos chegar à Comissão uma lista de questões que gostaríamos de ver resolvida simultaneamente ao eventual fecho deste acordo”. Era um mero “bluff” para ganhar tempo: eu não tinha rigorosamente nada na manga... O outro lado da mesa agitou-se, trocou olhares. Marin inquiriu: “Podes ser mais explícito?”. Respondi: “Eu disse ‘a seu tempo’. E ainda temos tempo”. Não tínhamos, mas precisávamos de ganhá-lo. A conversa foi breve.

O acordo com Marrocos acabou por ser assinado em meados de dezembro desse ano (seria eu próprio a assiná-lo, por Portugal). Conseguiram-se algumas pequenas coisas compensatórias, como sempre acontece nestes processos. E os marroquinos ainda tiveram de mandar um ministro a Lisboa.

Ontem, dia em que, por coincidência, António Costa estava em negociações em Marrocos, recebi a notícia de que morreu Manuel Marin, aos 68 anos. Chegou a presidente do parlamento do seu país e era uma figura respeitada nos socialistas espanhóis. Ao longo dos anos, pude constatar que era nosso amigo e tinha em atenção os interesses portugueses.

Ao saber da morte de Marin, não pude deixar de me lembrar de que, numa discoteca de uma capital africana de um país de língua francesa, de cujo nome não me quero lembrar (como diria Cervantes para um certo lugar da Mancha), tive de dançar até tarde com uma amiga que então tinha como único e persistente objetivo vir a ser convidada para tal por ele. O que aconteceu, lá para as duas da manhã. Ela deve estar triste, neste momento.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Eurogrupo, mentiras & Mendes

Cada dia que passa, tendo a ser muito cuidadoso quando leio uma notícia mais ou menos surpreendente. De imediato, verifico qual o órgão de comunicação social que a difundiu, porque, cada vez mais, a verosimilhança da informação depende muito, aos meus olhos, da credibilidade de quem a transmite. Estou mesmo convicto de que, no mundo de "fake news" que aí anda, esse vai ser o critério e o caminho do futuro.

(Regressamos, de certo modo, ao velho método de classificação de notícias que aprendi nas informações militares, que hierarquizava as fontes de A a E, em ordem decrescente de credibilidade da fonte, e as notícias de 1 a 5, conforme a sua decrescente verosimilhança. Um dos meus chefes dizia que A1 era uma notícia que nos era dada pela nossa mãe, que um E5 era uma "boca" do maior mentiroso que conhecêssemos e que "o nosso dia-a-dia é feito de C3". Tinha razão.)

Vem isto a propósito de Marques Mendes não ter acreditado na notícia que o 'Expresso" publicou no dia 1 de abril, sobre o facto de Mário Centeno ter sido sondado para a presidência do Eurogrupo. Eu também li a mesma notícia, mas vi quem a assinava: Luísa Meireles. Fiquei perplexo. A mim, tal como Marques Mendes, também me custava muito a crer que Centeno pudesse algum dia vir a presidir àquele órgão, mas a circunstância da notícia estar assinada por Luisa Meireles criava-me um conflito interior. É que eu conheço muito bem o rigor da jornalista, que sabe do que fala e não difunde "bocas". Se ela escrevia aquilo é porque havia algo de sólido por detrás. Ainda pensei telefonar-lhe, mas ela nunca revelaria uma fonte. Porém, para mim, independentemente da fiabilidade da fonte de Luisa Meireles, a hipótese continuava a ser implausível, e vivi até ao fim agarrado a esta posição. Que estava errada. Ainda bem.

domingo, 3 de dezembro de 2017

A cor do Filipe


O Filipe tinha uma figura pequena, magra, com um permanente e simpático sorriso de boa pessoa que era. Filho de um dos muitos irmãos do meu avô e, com um rancho de rebentos, ficara a viver em Bornes de Aguiar, dedicado à pequena agricultura.

Quando, pelos Verões, na Páscoa ou fins-de-semana, o meu avô, no seu tropismo eterno pela terra onde nascera, regressava de Vila Real a Bornes, rara era a noite em que o Filipe não surgia pela Casa do Pereiro, para dois dedos de conversa com o "tio doutor". Nos bancos da varanda à volta do pátio ou no escano da lareira, o Filipe atualizava então o meu avô sobre a vida da aldeia, desde as colheitas da Quinta da Pala, onde o Filipe vivia, a caminho de Eiriz, até às saídas para a tropa ou para a emigração, que iam deixando a aldeia cada vez mais cheia de velhos e viúvas de vivos.

Lembrei-me ontem do Filipe, o Filipe da Pala, como dizíamos. Isso acontece sempre que visito o cemitério de Bornes. Na sua campa, junto da qual sempre passo, com fotografia ligeiramente sorridente, está a data da sua morte, que é precisamente a do meu casamento.

O Filipe tinha uma imensa paciência para mim, que, desde a infância, passava por Bornes curtas temporadas com os meus avós. Levava-me a passeios de conversa pelo Fundo de Vila ou pelo Porto, uma zona que ia dar ao Cruzeiro, no coração da aldeia, junto à capela. 

Era no Cruzeiro que se situava uma das perdições do Filipe: a "venda" do Chico. Naquela casa, onde se vendia um pouco de tudo, propriedade de um outro primo, o Filipe passava de quando em vez, para beber uma "pinga" e ficar à conversa com a gente lá da aldeia. Às vezes, algum exagero nas doses ruborizava-lhe as faces, mas, que eu saiba, nunca se lhe alteravam os espíritos de forma dramática. Mas foi assim que, numa noute, chegou a casa do meu avô, no final de um jantar. Recordo-me tão bem!

O meu avô era um compulsivo inventor de cenas divertidas e, numa dessas noites, o seu sobrinho Felipe, de quem ele muito gostava, acabou por ser a vítima incauta de uma dessas partidas, que ficou para sempre na memória alegre da família. 

Apelando ao conhecimento vinícola do Felipe, o meu avô pediu-lhe a opinião sobre um vinho tinto de que alguém lhe tinha oferecido um garrafão: "Ó Filipe, tu que sabes de vinhos é que me podias dizer o que é que achas desta "pinga", que me trouxeram de Vila Pouca". E encaminhou-se para um armário, adiantando já que o tal vinho lhe parecia "demasiado encorpado". Mas o sobrinho é que ia dizer de sua justiça.

O Filipe, que, àquela hora e naquela noite, já tinha ligeiramente mais do que a sua conta, ainda pretextou falta de conhecimentos para estar à altura da responsabilidade da tarefa que o tio Francisco lhe destinava, mas lá acabou por aceder a dar o seu parecer, não fossem serem postos em causa os seus créditos de alegado conhecedor. O meu avô trouxe-lhe então um copo cheio, que o Filipe começou por levantar e olhar à transparência de uma lâmpada, decretando: "Lá boa cor tem ele!"

Depois, inclinou o copo para beber e - surpresa das surpresas! - nada lhe entrou na boca. O copo continuava cheio mas o seu conteúdo não deslizava. Pudera!, era geleia, feita pela minha avó, que a distribuíra por vários recipientes, entre os quais alguns copos sem pé! O Filipe, perplexo, olhava o copo, com os circunstantes ainda sem entenderem o que se estava a passar, com o meu avô a explodir de riso contido. Levemente toldado como estava, e não tendo ainda identificado o conteúdo do copo, saiu-lhe então uma frase que ficou nos nossos anais familiares: "Até hoje, nunca nenhum se me tinha negado!"

sábado, 2 de dezembro de 2017

O meu amigo reacionário

Tive e tenho vários amigos reacionários. Nem todos saudosos de Salazar, da sua ordem ou do império, alguns aceitando, mais ou menos a contragosto, que o direito de voto seja igual para um sábio ou um ignorante, outros ainda clamando pela ilegalização dos comunistas e por um país musculado, com pena de morte e tudo. Gente adepta de muitas outras coisas desse jaez, com uma agenda feita de nostalgia de um outro Portugal, que eu detesto. Ainda há pessoas dessas e, por muito que isso possa parecer surpreendente, tenho amigos desses. 

O Álvaro não era exatamente assim. Álvaro Magalhães dos Santos era um homem urbano, integrado na ordem democrática. Mas era um refinadíssimo reacionário, um direitolas “até dizer chega”. Ontem, durante um jantar geracional, falámos bastante dele.

Em Vila Real, onde nasceu, foi professor e dirigiu a casa da Mocidade Portuguesa, o que diz já alguma coisa. Licenciado em Germânicas, saltaria, anos mais tarde, do ensino para a área da publicidade. Andou pelo jornalismo, onde exerceu escrita humorística. Alguns se lembrarão do “Vicente Gil”, que enchia uma página da Capital. Escreveu no Diabo (“where else?”) e no Correio da Manhã, onde se especializou em imaginativos “balões” com graças políticas nas fotografias. Para grande pena minha, que não obstante a diferença de idades tinha com ele uma grande proximidade pessoal, o Álvaro desapareceu há cerca de uma década. Ainda hoje me faz falta como amigo.

Era um contador de histórias notável. O seu reportório parecia inesgotável, com memória rara para anedotas, que dizia com imensa graça. Passei horas a ouvi-lo, a ele que sabia iludir, como ninguém, o mundo que nos separava nas ideias políticas.

Um dia relatou-nos um episódio curiosíssimo, ocorrido em Londres. Ele, que fora professor de inglês, tinha um gosto especial pelo mundo anglo-saxónico. Londres era a “sua” cidade e, quando por lá vivi, “asilou” algumas vezes na minha casa, como já o havia feito na Noruega. (Um parêntesis para dizer que o Álvaro era, muito provavelmente, o mais elaborado forreta que alguma vez conheci). Mas o episódio tinha sido bem antes desse tempo.

O Álvaro comprara um dia para um filho, no Hamleys, uns brinquedos, nas vésperas de um Natal. À chegada ao hotel, deu-se conta de ter deixado o saco no táxi, como às vezes nos sucede. Não tendo referências do transporte, com o avião a partir horas depois, deu por perdida a compra, o que, conhecido o seu apego ao dinheiro, o deve ter deixado furibundo. Mas era a vida!

Uns anos mais tarde, também num táxi londrino, meteu conversa com um motorista e contou o episódio, que devia ser traumático para quem era tão cioso da sua bolsa. O homem perguntou-lhe se tinha recorrido ao serviço de “lost & found” dos táxis. O Álvaro retorquiu que não, porque partira quase de seguida para Portugal. O taxista disse da existência, algures em East London, de um grande armazém onde eram recolhidos objetos deixados no “black cabs”. Quem sabe se o saco perdido do seu cliente não estaria por lá...

O Álvaro foi a matutar naquilo para o hotel. A compra não havia sido muito cara, mas a possibilidade de a recuperar ficou a borbulhar na sua cabeça. Ir de taxi ao tal armazém era impensável: ficaria talvez mais caro do que o preço do brinquedo. Decidiu, finalmente, ir de metro, não obstante nevar sobre Londres por esses dias. A jornada ia fazer-lhe perder uma tarde na National Gallery (onde a entrada era gratuita...), mas paciência!

Da saída do metro até ao tal armazém ainda foi um bom bocado, sob a neve que caía e o encharcado desagradável pelos passeios. Mas ele estava determinado. O armazém tinha um ar exteriormente algo decrépito. Tocou uma campaínha, atendeu-o um rapaz com um ar de “punk” que lhe indicou um balcão, por detrás do qual havia uma quantidade impressionante de estantes, com caixas. Imaginou o mundo que por ali estaria. Esperou um bom bocado, até que lhe apareceu um tipo corcunda, de óculos muito graduados, com sotaque irlandês.

O Álvaro tinha-se munido da data em que, cerca de três anos antes, viajara no táxi no qual se esquecera da prenda para o filho. Com calma, mas com método, viu o homem procurar um de entre vários livros de registo, de formato longo, estendendo-o sobre o balcão. Notou que estava todo manuscrito, com várias indicações, do registo das viaturas à natureza dos objetos perdidos. À indicação de que tinha sido num táxi entre Regent Street e Bayswater, onde o Álvaro estivera num hotel baratucho, como era seu timbre, o funcionário do armazém perguntou: “A que horas foi?”. O Álvaro disse que tinha sido pouco depois das sete da tarde e viu o homem fazer um esperançoso sinal afirmativo com a cabeça, enquanto percorria com o dedo as linhas do livro. “Disse-me que era um saco do Hamleys? Tinha um tom avermelhado?” Não era possível! Tinha, de facto, um tom avermelhado! O homem, sempre sem expressão, voltou-lhe as costas e encaminhou-se para um dos longos corredores com prateleiras. O Álvaro ainda teve a tentação de olhar o registo que, aparentemente, mobilizara o homem, mas este havia tido o cuidado de colocar o livro longe da sua vista.

Passou aquilo que pareceram ser uns longos minutos. No silêncio geral em que o armazém estava mergulhado, ouvia-se apenas o arrastar do que parecia ser uma escada de acesso às prateleiras, uns ruídos de afastamento de objetos. Finalmente, o homem surgiu, ao fundo. Trazia na mão uma caixa grande de cartão que pousou sobre o balcão. O Álvaro estava radiante! O homem conferiu de novo o livro de registo e, voltando-se para o meu amigo, disse, sempre sem expressão: “Não está cá nada!”. O Álvaro caiu das núvens. “Mas, então, e essa caixa?”. O homem, pela primeira vez, pareceu surpreendido. “Esta caixa? Ah! Não tem nada a ver consigo. Estava mal colocada e trouxe-a para corrigir o registo”. Tanto esforço para nada! Intrigado, o Álvaro teve uma derradeira reação: “Mas porque é que me tinha dito que o saco era em tons de vermelho? Pensei que isso significasse que tinha aí registado isso!”. Pela primeira vez o rosto seco do homem abriu-se um pouco, num esgar entre o sorriso e o que pareceu ser um tom de gozo: “Os sacos do Hamleys são sempre em tons de vermelho”.

O Álvaro levava um bom quarto-de-hora a contar este episódio, recheando-o de pormenores, de notas que nos faziam vivê-lo como se estivéssemos a participar da cena. Tenho pena de nunca mais o poder ouvir de novo. O que ele teria dado para estar ontem na “ceia” do “primeiro de dezembro”, nesta cidade sobre cuja rua onde nasceu ele escreveu um livro insubstituível, como ele próprio era!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O lorgnon do senhor Lito


Neste dia do ano em que, evocando outros tempos, me reúno às vezes em Vila Real com gente da minha geração, numa tradicional “ceia” do “primeiro de dezembro”, deu-me para contar uma história, também desses outros tempos, passada com dois amigos vila-realenses, antigos colegas de escola primária.

Foi em 1967, há precisamente 50 anos. Ao final de uma manhã, bateram à porta da casa do Porto onde eu tinha um quarto alugado, como estudante, na rua Miguel Bombarda. O Olívio Carvalho e o Domingos Lito tinham chegado no Cabanelas, o autocarro que ligava Vila Real ao mundo - através das curvas do Marão, com paragem no Príncipe, no largo do Arquinho, em Amarante, e um cheiro a regueifas vendidas na camionete por uma senhora de bigode, à passagem por Paredes. 

A deslocação tinha como finalidade proceder à operação de venda, por um preço que esperavam ir ser uma imensa “nota”, de um velhíssimo lorgnon, uns óculos manuais que teriam pertencido ao avô do Domingos, o Senhor Lito, um histórico e abastado comerciante da cidade. O Olívio vinha coadjuvar tecnicamente a operação, com a sua consabida lábia e o olho para as antiguidades que, curiosamente, iria marcar muito do seu percurso profissional futuro.

De mim, a expedição apenas pretendia o que julgavam ser o meu conhecimento da cidade do Porto, das suas lojas mais credenciadas, onde o negócio pudesse vir a fazer-se com maior proveito. A porta onde tinham batido era, contudo, fraca: eu não sabia rigorosamente nada de antiguidades, conhecia apenas as montras de alguns estabelecimentos comerciais do ramo. Lá lhes dei duas ou três dicas e fui vagamente para umas aulas, mais para cumprir calendário do que com qualquer outro propósito útil. (Nesse ano, eu haveria de concluir apenas mais uma cadeira do meu curso, mantendo o hábito estreado no ano anterior. Meses depois, desistiria dessa opção académica. É que, a ter continuado a esse ritmo unitário anual, julgo que estaria a acabar Engenharia Eletrotécnica mais ou menos por este ano ...).

Combinámos encontrar-nos ao fim da tarde, no Estrela d’Ouro, um café na rua da Fábrica onde eu fingia que estudava e bilharava bastante mais. A cara com que o par de conterrâneos fez a sua entrada no café não prenunciava a realização de um negócio estrondoso. O Domingos vinha murcho com o escasso encaixa de capital que fizera. Como teorizou o Olívio, havia no mercado das antiguidades portuenses um excesso de lorgnons, pelo que a verba recolhida ficara aquém das expetativas. Mesmo assim, se eu lhes pudesse dar guarida nessa noite, o dono da “massa” ofereceu-se para pagar uma jantarada e um copo, regressando a dupla à “Bila” no Cabanelas da manhã seguinte.

Com o meu colega de quarto ausente, ofereci-lhes a sua cama, imagino que com algumas ironias machistas sobre o modo de partilha do leito. E lá partimos para a noite do Porto, esse sim, o verdadeiro curso que por ali eu andava a tirar...

Jantámos, muito bem, na Regaleira, no primeiro andar do Bonjardim. No final, generoso, o Domingos fez as contas: sobravam ainda algumas boas notas. Propus irmos beber um vermute (estava na moda) à Tentativa. Era cedo, o ambiente estava fraco, mas, mesmo assim, foi-nos difícil arrancar dali o Domingos, já embeiçado por uma pequena que lhe esportulou umas bebidas carotas. Dali, rumámos à Candeia, um pouso mais interessante na rua do Almada, onde alguma regularidade me dava um acesso franqueado. O strip na cave estava prestes a começar e aí foi o Olívio que se distraiu e mandou vir umas garrafas de Magos a mais, a pedido de uma jovem oriunda do nosso império. Sem haver outros fundos disponíveis, lá teve o Domingos que pagar a despesa, o que provocou um rombo considerável no pecúlio que sobrava da venda do lorgnon. Se o álcool tinha arruinado a contabilidade do Domingos, também a tornava menos relevante no seu espírito, pelo que, “perdidos por cem”, ainda lhes fui mostrar as delícias baratuchas da Japonezinha, na praça da República. A carteira do Domingos já não dava, porém, para aventuras de monta, muito menos para um qualquer “follow up” romântico, pelo que restou aproveitar o histórico baile com que a noite fechava. 

Regressámos, um tanto cabisbaixos e um pouco toldados, à casa onde eu vivia, onde o pé-ante-pé que pedi para o acesso discreto ao meu quarto se transformou, subitamente, num tropel que acordou a idosa dona da casa, que não deixaria mais tarde de me vir fazer observações críticas sobre o uso imoderado que às vezes eu fazia das instalações. 

O pior seria o acordar, na realidade. Feitas as contas à luz crua do dia, o Domingos constatou ter ficado apenas com uns parcos trocos, como saldo da venda do lorgnon. E tive mesmo de ser eu a entrar com uma pequena ajuda para a compra dos bilhetes do Cabanelas, no regresso a casa do par de menos bem sucedidos vendedores de ocasião. 

O Olívio já se foi, o Domingos perdi-o de vista há muito. Lembrá-los neste dia de encontro geracional pareceu-me uma boa ideia.

Senteno


O título pode parecer estranho, mas com ele pretendo sublinhar que tudo o que, por ora, se diga sobre a ida de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo deve ser iniciado com um prudente e kiplinguiano "Se". Há que aguardar a confirmação final da escolha.  

Vale a pena lembrar a complacência com que o novo ministro português foi recebido, pela primeira vez, no Eurogrupo, nos idos de 2015, com Schäuble ainda a fazer o luto de Maria Luís Albuquerque, tendo ao lado, solícito, o sorriso cinicamente encaracolado de Dijsselbloem.  Todos nos recordamos, com certeza, do ar de aluno “marrão” de DombrovskIs, debitando bálticas reticências na Comissão sobre a capacidade das gentes do Sul para porem a sua casa em ordem. 

Que se terá passado para que, num prazo não muito longo, o infrator pudesse surgir com fortes hipóteses de passar a árbitro? Terá a Europa da ortodoxia arrepiado caminho, arrependida das receitas que impôs, sem dó e com nenhuma piedade, decidindo que, afinal, uma linha mais contemporizadora é que tinha a razão do seu lado? Estarão aí, ao virar da curva, a atenuação dos rigores do Tratado Orçamental, a reestruturação europeia da dívida, a sua mutualização pelos eurobonds?

Nada disso. A Europa do euro não se arrepende um milímetro daquilo que a "troika" nos impôs, nunca deixa um elogio a Mário Centeno desacompanhado da nota de que o seu sucesso se deve às condições que encontrou, graças ao "bom trabalho" dos seus antecessores. E não prescinde, claro está, de todos os objetivos macroeconómicos e respetivos calendários.

Mas, então, o que é que mudou naquelas cabeças, para poderem encarar vir a aceitar Centeno?

Desde logo, a Europa pode necessitar de ter alguém, oriundo de um Estado não-grande, que possa ser um "honest broker" no Eurogrupo, preservando o lugar há já muito prejudicada família socialista (que irá futuramente perder a vice-presidência do BCE, com a saída de Vitor Constâncio). Centeno, cuja competência está mais do que demonstrada (não necessitando para isso de ter dirigido o Gabinete de Estudos do Banco de Portugal...), é alguém que demonstrou, na prática, que é possível manter fidelidade às metas do rigor macroeconómico sem, necessariamente, persistir na aplicação cega das receitas anteriores, isto é, explorando seletivamente algumas margens orçamentais, fruto do crescimento induzido e de fatores favoráveis da conjuntura, através de moderadas reversões que acabam por tornar o "bolo" política e socialmente mais palatável. Centeno provou ser possível "humanizar" as políticas austeritárias e isso pode ser interessante para uma Europa em desespero de aceitabilidade e apaziguamento interno.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Mário Centeno


Nunca acreditei nas reais possibilidades de Mário Centeno vir a ser presidente do Eurogrupo, na leitura que fazia dos equilíbrios políticos que nele se projetavam. Erro meu. 

Não sabemos ainda se virá a ser escolhido, mas, mesmo que isso não venha a acontecer, o anunciado conjunto de apoios que a sua candidatura já concitou é um fantástico reconhecimento para o próprio, uma vingança do tamanho do mundo para António Costa, o primeiro-ministro que o descobriu para a política, e uma “fava” natalícia antecipada para muita (mesmo muita) gente. 

Se acaso Centeno vier a ser eleito, tal como já aconteceu com Guterres na ONU, preparemo-nos para as medíocres ironias paroquiais que por aí abundarão, desqualificadoras da importância do lugar e do poder efetivo do seu titular, com prenúncios do pior para o futuro dos equilíbrios no seio da “geringonça”. 

Portugal é assim há muitos séculos, a inveja, o despeito e o ódio ao sucesso dos outros fazem parte da nossa matriz identitária como povo e são, com toda a certeza, uma das fortes razões que explicam por que não passamos da cepa torta.